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Dinheiro do tráfico para propinas Polícia Federal apura se dinheiro das drogas tinha relação com "pagamentos" a políticos. Um investigado foi preso em Pernambuco

Publicação: 16/05/2018 03:00

O delator da Lava-Jato Carlos Alexandre de Souza Rocha, conhecido como “Ceará”, e mais sete pessoas - uma delas em Pernambuco - foram presas, ontem, na Operação Efeito Dominó, deflagrada pela Polícia Federal. O doleiro Edmundo Gurgel Júnior, que também trabalhou com Alberto Yousseff, um dos principais personagens da Operação Lava-Jato, teve mandado de prisão expedito no Recife, mas foi preso em João Pessoa. Já empresário Ivo Queiroz Costa Filho, que pertencia ao ramo de blindagem de veículos, foi preso na capital pernambucana. Edmundo Gurgel já tinha sido investigado na Operação Farol da Colina, envolvendo fraudes no extinto Banestado. Ele e “Ceará” trabalharam com Yousseff, supostamente fazendo conexão entre o dinheiro do tráfico e políticos, estes de nomes não revelados.

A Operação Efeito Dominó foi deflagrada em Pernambuco, na Paraíba e no Ceará, no Rio de Janeiro, em São Paulo, Mato Grosso do Sul e no Distrito Federal. A prisão que chamou mais atenção no meio político foi a do “Ceará”. O doleiro teve a prisão preventiva decretada depois de ficar solto por cerca de três anos. Ele foi preso pela primeira vez em março de 2014 e assinou um acordo de delação premiada com a Lava-Jato, quando ficou conhecido por dizer que o senador Aécio Neves (PSDB-MG) era “o mais chato” na cobrança de propina junto à empreiteira UTC.

Além de Aécio, “Ceará” delatou ter feito repasses para os senadores Renan Calheiros (MDB-AL), Fernando Collor (PTB-AL) e Randolfe Rodrigues (Rede), denúncia que todos contestaram, na época, e não foram condenados. A prisão mostra que o papel coercitivo da Lava-Jato ainda não atingiu seu limite máximo. “Ceará” havia firmado um acordo com a Procuradoria-Geral da República, homologado pelo Supremo Tribunal Federal, para ser solto, e voltou a ser acusado de crimes semelhantes. “Há indícios de um vínculo muito claro do dinheiro do narcotráfico, em espécie, indo parar nas mãos de políticos”, disse o delegado federal Roberto Biasoli, coordenador da operação.

A Polícia Federal informou que vai comunicar à PGR e ao STF sobre a eventual quebra de acordo de “Ceará”. No esquema desmontado pela Operação Efeito Dominó, os doleiros são acusados de atuar como instituição financeira paralela e de repassar recursos oriundos do tráfico de drogas para pagar propina a políticos e agentes públicos. Eles trabalhavam com dinheiro em espécie, usavam em reais para pagamento de propina. Os traficantes, por sua vez, vendiam reais e obtinham dólares para transações internacionais com fornecedores de drogas.

As investigações mostraram indícios acerca do modus operandi da organização criminosa. Ela consistia, segundo a PF, na convergência de interesses das atividades ilícitas dos “clientes dos doleiros investigados, pois de um lado havia a necessidade de grande volume de reais em espécie para o pagamento de propinas e de outro, traficantes internacionais como Luiz Carlos Rocha, o “Cabeça Branca”, possuíam disponibilidade de recursos em moeda nacional e necessitavam de dólares para efetuar as transações internacionais com fornecedores de cocaína.

“Ceará” foi preso no município de João Pessoa, onde o delegado federal Roberto Biasoli afirmou que ele deu continuidade às atividades criminosas. “A questão da localidade não interessa tanto, porque eles agem em todo o Brasil, usam aplicativos para se comunicar. Ele escolheu João Pessoa para residir nos últimos anos, mas viajava muito”, declarou o delegado em coletiva, dizendo que o doleiro tinha alguns endereços.  

Os mandados em Pernambuco foram executados na Avenida Boa Viagem e na Avenida Mascarenhas de Moraes, na Imbiribeira, um deles na empresa Full Blindagens. O novo proprietário informou que a empresa tinha sido comprada desde março e não pertencia mais ao irmão de Ivo Queiroz Costa Filho. A Full Blindagens negou que os recursos apreendidos - R$ 40 mil em espécie – tenham sido encontrados em seus estabelecimentos e enviou documento em anexo conseguido pela PF. “A gestão atual não tem qualquer responsabilidade sobre o objeto da investigação ou ato praticado antes de março de 2018, mês em que foi adquirida pela AFS Serviços de Blindagem Eirelli”, disse a empresa, em nota. Os advogados do empresário Ivo e do doleiro Edmundo Gurgel não foram encontrados até o fechamento da edição.  Ao todo, 90 policiais participaram da operação em todo o país. A PF afirma que também desarticulou uma “uma enorme estrutura estabelecida para o tráfico internacional de drogas e  comandada por Luiz Carlos da Rocha”. (Da redação)