ECONOMIA

Os passos da metamorfose Havaianas Marca, que mudou de dono após a Lava-Jato, passou por inúmeras transformações em cinco décadas

Publicação: 12/08/2017 03:00

Originalmente chinelos baratos para pessoas mais pobres, as Havaianas foram elevadas ao patamar de grife mundial. Uma das maiores histórias de sucesso no Brasil ganhou uma nova etapa após os escândalos de corrupção envolvendo seus proprietários. A Alpargatas, sua empresa matriz, era controlada desde 2015 pelo grupo J&F, dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Envolvidos em diversos escândalos de corrupção, os Batista confessaram seus crimes e aceitaram pagar uma multa recorde de R$ 10,3 bilhões ao longo de 25 anos para não ir parar na cadeia.

Tentando sobreviver ao escândalo, a J&F começou a vender seus ativos. Há algumas semanas, transferiu por R$ 3,5 bilhões seu pacote de 54,24% de ações da Alpargatas a três holdings bancárias: Cambuhy Investimentos e Brasil Warrant, da família Moreira Salles, e Itaúsa, grupo que controla o Itaú, comandado pela família Setubal e Pedro Moreira Salles.

Nas ruas, pouca gente sabe sobre a mudança de mãos da icônica marca, lançada em 1962, inspirada nas sandálias japonesas de palha de arroz. Seu modelo de borracha emprestou o nome da capital do exotismo à época, o Havaí.

Hoje, clientes entram e saem das centenas de lojas oficiais no país, fascinados com o universo multicolorido: são até 150 modelos diferentes, que vão de sandálias básicas por cerca de R$ 18, a designs estilizados ou estampados por R$ 35, e até incrustados de cristais Swarovski por mais de R$ 200.

CARA DO RIO
Em uma luminosa loja perto da Praia de Copacabana, Solange Brascher, uma empresária de 55 anos, compra um par de Havaianas para sua filha. “No passado havia esse preconceito de que eram as sandálias das pessoas pobres, mas hoje são ‘cool’, atingem todas as classes”, conta.

No bairro mais turístico do Rio, praticamente não se vê outro calçado. É usada por moradores de rua, pelos trabalhadores que correm para pegar o ônibus, pelos turistas que chegam na praia.

Com mais de 200 milhões de pares vendidos por ano, 16% no exterior, as Havaianas são um símbolo do Brasil junto com o futebol e o samba. “Já comprei dez pares e quero comprar outros dez para meus amigos, porque na Europa são muito mais caras”, confessa Beatriz Rodrigues, uma turista portuguesa de 18 anos.

Havaianas começou a ser internacionalizar nos anos 1990, com uma aposta forte no design e na publicidade. Do slogan inicial de Não deformam, não têm cheiro e não soltam as tiras, passou para o contundente Todo mundo usa.

Hoje o grupo Alpargatas tem mais de 700 pontos de venda em mais de cem países, entre eles Espanha, França, Estados Unidos, Argentina, China e Angola. Com o sucesso, vieram também as várias imitações. “As Havaianas se tornaram um objeto de desejo. Hoje é um sinônimo do Brasil que deu certo”, explica à AFP Cláudio Goldberg, professor do MBA de Marketing da Fundação Getulio Vargas. (AFP)