ECONOMIA

Observatório econômico

por André Matos Magalhães *
observatorio@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 16/04/2018 09:00

Concentração de renda

Em um país com um problema tão grande de desigualdade é fácil perceber que o custo da recessão é ainda maior, principalmente quando a crise é gerada por políticas econômicas populistas e irresponsáveis como as alimentadas pela chamada Nova Matriz Econômica. Políticas de campeões nacionais ou coisas do tipo não funcionam. Também não podemos acreditar que o Estado deve se preocupar em garantir aumentos salariais aos 1% mais ricos.

O IBGE divulgou na última semana os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) – rendimento de todas as fontes 2017. A pesquisa apresenta diversas estatísticas de rendimento para o país e por região. São muitos números. Muita informação. Nem tudo é exatamente novidade, mas é sempre importante olhar o quadro geral. Eu acredito que, pelo menos, duas formas de olhar os números são interessantes: comparação 2016 e 2017 e a distribuição dos rendimentos entre as pessoas.

O que aconteceu entre 2016 e 2017? Bem, a PNAD nos mostra que, para o total do país, houve uma queda no rendimento médio de todos os trabalhos. A renda real média caiu de R$ 2.268,00 para R$ 2.237,00 (uma redução de 1,4%). A queda não foi geral. No Nordeste houve uma elevação de 1,7% (de R$ 1.405,00 para R$ 1.429,00). Em geral, pode-se dizer que 2017 não foi um ano bom. A economia melhorou em relação aos anos anteriores. A recessão acabou, mas a renda e o emprego não se recuperaram. Bom, a essa altura isso talvez nem seja mais novidade, mas é importante conferir as contas.

O segundo olhar que a PNAD nos permite é, possivelmente, mais interessante. Em 2017, os 10% com os maiores rendimentos ficaram com 43% de tudo que foi pago, enquanto os 10% com os menores rendimentos levaram 0,7% da massa total (de tudo que foi pago às famílias)! Já sabemos que a concentração de renda é alta no Brasil, mas esses números nos ajudam a olhar o problema de perto.

Ainda, as pessoas que fazem parte do 1% da população com rendimentos mais elevados receberam aproximadamente R$ 27.000,00 de renda média mensal. Isso é quase 13 vezes o rendimento médio nacional. Isso nos permite, acredito eu, colocar em perspectiva os salários pagos às diversas categorias e as lutas por maiores remunerações e benefícios. O Brasil é tão interessante que quem faz parte do 1% mais rico se acha “classe média”. É claro que não vamos melhorar o país piorando a renda dos que ganham mais, mas, talvez, não faça sentido o discurso de sofrimento quando se faz parte de um pequeno grupo seleto.

Em um país com um problema tão grande de desigualdade é fácil perceber que o custo da recessão é ainda maior, principalmente quando a crise é gerada por políticas econômicas populistas e irresponsáveis como as alimentadas pela chamada Nova Matriz Econômica. Políticas de campeões nacionais ou coisas do tipo não funcionam. Também não podemos acreditar que o Estado deve se preocupar em garantir aumentos salariais aos 1% mais ricos. 

O Brasil precisa urgentemente buscar formas de elevação da produtividade, do aumento da eficiência. Esse é o caminho sustentável de longo prazo. Devemos, claro, manter as políticas sociais que funcionam, mas sem perder de vista os números reais da economia.