EM FOCO

Há lugares em que só se deve pisar uma vez Se o dinheiro é pouco e o gosto por humanidades, muito, evite Vegas e prefira San Francisco

Luce Pereira
lucepereirajornalista@gmail.com

Publicação: 13/01/2018 03:00

Jurei de pés juntos nunca mais colocar os pés em Las Vegas e isto muito antes de Donald Trump – dono de um hotel monumental, ao lado do que me hospedou – ter poder para ficar brincando de medir, com o igualmente aloprado presidente da Coreia do Norte, Kim Jong-un (ou Kim Jung-woon), o tamanho do botão nuclear que aciona o arsenal atômico nos dois países. Difícil mesmo é descobrir qual se comporta de maneira mais detestável perante o mundo. Contudo, voltemos a Vegas. A cidade não é apenas dominada pelos caça-níqueis, mas, também, por uma cultura fake, a partir da qual se multiplicam réplicas de grandes referências turísticas no mundo como a Torre Eiffel, o Coliseu de Roma e as pontes de Veneza. Além, claro, de ostentar orgulho (ao menos discutível) pelo número de limousines em circulação transportando arquimilionários e gente que deseja apenas registrar nas redes sociais um passeio contratado a preço nada módico. Não é o melhor lugar para viajantes com as finanças inspirando certo cuidado, até porque terão dificuldade, inclusive, em sair de algum shopping com bolsa de compras. Todos são dominados pelas grifes verdadeiramente famosas, ao alcance apenas das grandes fortunas para as quais são reservadas salas exclusivas nos cassinos mais luxuosos. Exceção sempre existe: os espetáculos fixos do Circo du Soleil, que, como se sabe, custam os olhos da cara. Mas são emocionantes.

Claro que não haveria melhor lugar para o mundo tech fazer sua vitrine mais reluzente, com a oferta de produtos excêntricos, muitos deles inúteis, outros tantos até risíveis, mas tendo em comum a capacidade de atrair a atenção de endinheirados consumidores. A graça, para eles, estaria em este segmento realmente funcionar como um muro (ops! Lá vem Trump outra vez) separando ricos, remediados e pobres. E para uma cidade que entre tantos os exageros ostenta o de ser iluminada apenas pelo enorme clarão que vem dos edifícios, lojas e empreendimentos, a famosa feira de tecnologia CES ter ficado às escuras, na última quarta-feira, foi no mínimo irônico. Durante o tempo em que durou o problema, mantiveram-se longe dos olhos dos frequentadores itens como o vaso sanitário que custa US$ 5,6 mil e dá descarga por comando de voz, além de tocar música enquanto está sendo usado. Ainda na categoria inutilidades, o robô-travesseiro batizado como Somnox, que respirando simula a presença de outra pessoa na cama, comanda meditações e entoa canções de ninar – muito bom para solitários que não sabem o que fazer com dinheiro. Mesmo para quem quer caminhar “divorciado” da bagagem, em aeroportos do mundo afora, já existe a mala-robô da Travelmate, que segue ao lado do viajante. Lançamento em fevereiro, nos EUA, ao preço de US$ 1,1 mil.

Assim sendo, os exageros de Vegas e a clara vocação para o lado fútil da vida – templo que é da ostentação e do consumismo – me levam a prometer que nunca outra vez. Muito melhor negócio faz quem resolve desviar de Nevada e ir para a Califórnia, percurso pouco mais longo do que Recife-Salvador (915 km). San Francisco existe exatamente para curar a decepção de quem esperava menos cassinos e um pouco mais de alma.