EM FOCO

O homem de 70 carnavais que não deixa folião quieto Claudionor Germano, Patrimônio Vivo de Pernambuco, segue cantando e conduzindo a bandeira do frevo

Luce Pereira
lucepereirajornalista@gmail.com

Publicação: 10/02/2018 03:00

Nos sentamos na ampla sala do apartamento, eu me sentindo como se na frente de um venerável estandarte do frevo (do Batutas, do Lenhadores, do Vassourinhas ou do Madeira). O dono da casa já caminha manso, por ordem do tempo, mas a garganta ainda guarda a força de muitos carnavais – para mais de 70, na verdade – o que o faz merecer todas as reverências de foliões, de clubes e de blocos do estado. Claudionor Germano, do alto dos seus quase 87 anos, além de ser Patrimônio Vivo de Pernambuco, é um homem cheio de preocupações com os destinos do frevo, ritmo que lhe proporcionou uma vida de glórias e alegrias. Sente que o gênero precisa ser oxigenado com a chegada de novos intérpretes e até critica o número de músicas destinado a ele na abertura do carnaval do Recife. “Deveriam ser apenas duas e as outras três, para novos artistas”. Apesar de enfrentar problemas de coluna, não joga a toalha, parece ter feito ao frevo juramento de fidelidade absoluta, que cumpre desde o dia em que passou a cantar apenas músicas de gênios como Capiba e Nelson Ferreira, tornando-se o maior intérprete do repertório dos dois. Desistir, só quando as pernas não puderem aguentar, como diz a letra de um samba. Tanto assim que cantou no Baile Municipal (apresentou-se em todas as 54 edições), onde foi recebido com o mesmo respeito e carinho de sempre.

Hoje ele já ouve bem menos, e então é preciso falar pausadamente. Mas a conversa flui como se fosse um desfile de Pitombeira dos Quatro Cantos pelas ladeiras de Olinda. É um homem de muitas saudades, sobretudo dos velhos carnavais e dos grandes companheiros de jornada que ajudaram a colocar seu nome na galeria dos maiores do carnaval de Pernambuco. Nelson, Capiba e o cantor Expedito Baracho (falecido em maio de 2017), sobretudo. Como se a memória percorresse um longo e luminoso caminho, parece viver novamente episódios em que ficava patente o “ciúme” dos dois compositores de frevo quando cada um lançava disco de sucesso retumbante, na voz dele, como foi Capiba 25 anos e O que eu fiz e você gostou (do maestro Nelson Ferreira). Uma “rivalidade cordial”, segundo define, enquanto ri com as lembranças.

Surpreendentemente nunca inclinado a cair na folia, diz que repassou o bastão para o filho Nonô e que espera, de quem vai sucedê-lo, luta incansável em defesa do gênero, considerado a “carteira (cultural) de identidade” de Pernambuco. Talvez sinta-se menos inquieto com o futuro ao saber que a prefeitura resolveu criar o Festival Nacional do Frevo 2018, cuja finalíssima deve acontecer em maio próximo. Enfim, um fio de esperança, embora concordemos que é preciso bem mais para garantir a permanência do ritmo no coração das novas gerações, sobretudo diante da forte propaganda em torno de artistas contratados a peso de ouro, para cantar no carnaval, cujas carreiras não revelam a menor ligação com o som que faz sombrinhas e passistas voarem juntos. Por tanta afinidade de pensamento e porque a conversa não poderia ser mais leve, acabo trazendo para casa o livro que retrata vida e obra dele (Claudionor Germano, a voz do frevo, Cepe, 2017), cordéis e CDs. Mas o que o dono da casa não imaginava é que o maior presente já me tinha dado na infância – a felicidade de aprender a cantar, com minha mãe, sucessos imortais dele, enquanto o carnaval fervia nas ruas do Recife e Olinda.