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Depois de Donald Trump, Temer Crise política brasileira era, ontem, o segundo tema mais comentado na mídia norte-americana, antes mesmo do pronunciamento do presidente

Publicação: 19/05/2017 03:00

Minutos antes de o presidente Michel Temer declarar que não renunciaria ao cargo em um pronunciamento oficial, ontem, a notícia da crise política no Brasil já era o segundo tema mais falado na mídia dos Estados Unidos. Agregadores de publicações norte-americanas indicavam que apenas a pressão política sobre Donald Trump era mais tratada na imprensa do país.

“Os norte-americanos estão acompanhando o noticiário sobre a política brasileira de perto desde o ano passado”, explicou Tom Reichert, chefe do departamento de publicidade e relações públicas da Universidade da Georgia (EUA). “Agora há um pico no número de reportagens sobre o Brasil, por conta da nova crise”, complementou, em entrevista à reportagem, em São Paulo, onde apresentou o mais amplo estudo sobre a percepção da imprensa norte-americana a respeito do Brasil.

Segundo ele, apesar de o atual escândalo estar chamando muita atenção, e de o foco na instabilidade política levantar discussões sobre as implicações econômicas dela, há uma sensação de que pode haver finalmente uma solução para a crise. “Depois do atual pico no noticiário, haverá uma oportunidade para mostrar o Brasil no exterior sob um enquadramento novo. Pode haver a sensação de renovação, de dar um passo adiante no sentido da busca da estabilidade e da resolução da crise”, disse.

Ao longo de 2016, Reichert coordenou um levantamento que analisou 143.549 reportagens sobre o Brasil na mídia dos EUA. O estudo foi além do que dizem os veículos mais famosos e relevantes, como o jornal The New York Times e o Washington Post, e incluiu pequenos jornais, sites temáticos e veículos locais espalhados pelo país. O estudo foi feito em parceria com a empresa brasileira Imagem Corporativa, e visa entender a imagem do Brasil no mercado norte-americano.

“O cenário midiático está mudando. Notícias locais e redes sociais têm se consolidado como mais importantes do que grandes veículos como fonte de informação dos norte-americanos”, avaliou Itai Himelboim, diretor do departamento de engajamento de redes sociais e publicidade da mesma universidade americana, que também coordenou o trabalho divulgado em São Paulo. Segundo ele, 60% das referências ao Brasil foram encontrados em fontes menos conhecidas no resto do mundo.

O levantamento, eles explicaram, ajuda a entender o pensamento dos norte-americanos como um todo, incluindo os eleitores de Donald Trump, muitas vezes desconhecidos da grande mídia dos EUA. “É um estudo que visa entender como o Brasil é visto nos EUA, perceber o que os americanos pensam do Brasil”, explicou Reichert.

A pesquisa apresentada ontem indica que “2016 foi um ano difícil para o Brasil”. Apenas 2% do noticiário norte-americano sobre o país pode ser lido como positivo, 61% das notícias foram neutras e 37% tiveram viés negativo. A Olimpíada foi tema de 29% das menções ao país no ano, mas assuntos de política dominaram quase 70% das reportagens sobre o Brasil.

A pesquisa também incluiu um levantamento preliminar do comportamento do noticiário norte-americano sobre o Brasil nos três primeiros meses deste ano. Ao contrário do foco em esportes e política registrado em 2016, notícias sobre violência (protestos em presídios, assassinatos e greve da polícia) foram as que tiveram maior pico de cobertura no país. O escândalo das carnes adulteradas também teve muita atenção.

“Vemos uma diversidade muito maior de temas. Histórias menores e mais locais passaram a ganhar destaque”, explicou Himelboim. O primeiro trimestre do ano registrou 22.090 notícias sobre o Brasil nos EUA, bem menos do que as 47.268 menções em reportagens no mesmo período do anterior. O percentual se notícias negativas caiu a 32% no período, com 66% de menções neutras e 2% positivas.

EUA
Os Estados Unidos foram o primeiro país a se posicionar, publicamente, sobre a crise política brasileira. O comunicado divulgado ontem é curto, porém otimista. Nele, o governo brasileiro e o presidente Michel Temer ganharam uma espécie de “voto de confiança” dos Estados Unidos para tentarem superar o momento turbulento. O Departamento norte-americano afirmou que o país tem “confiança” no contexto atual da crise que atinge o presidente da República do Brasil. “Nós estamos cientes das alegações e temos confiança nas instituições do Brasil”, disse um porta-voz do órgão, deixando clara a intenção de não pressionar o Brasil.