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Ex-primeira-dama para resolver a crise uruguaia Lucía Topolansky assume a vice-presidência após anos de escândalos envolvendo seu antecessor

Publicação: 14/09/2017 03:00

Lucía Topolansky tem uma estreita relação com Raúl Sendic, que renunciou à vice-presidência do Uruguai no último sábado, abrindo as portas para que a ex-guerrilheira e ex-primeira-dama chegasse ao cargo mais importante de sua carreira política. Prestes a completar 73 anos, em 25 de setembro, Topolansky assumiu a Presidência da Assembleia Geral no Congresso do Uruguai ontem. A instituição a estabelece, assim, como vice-presidente da República, em um país onde esse cargo costuma ser o vínculo entre Executivo e Legislativo.

Seu papel será o de curar as feridas da governista Frente Ampla. Após anos de escândalos ligados a seu agora ex-vice-presidente, a sigla deverá se recompor no Legislativo, tentando não perder a maioria dos votos e a disciplina partidária que lhe permitiu aprovar projetos na contramão da oposição política.

Nascida em Montevidéu, em 1944, Lucía Topolansky está casada com José “Pepe” Mujica. Os dois se conheceram na juventude, quando ela era integrante da guerrilha Movimento de Libertação Nacional MLN-Tupamaros. O casal não teve filhos. O MLN-Tupamaros atuou no Uruguai desde meados dos anos 1960 até sua derrota militar em 1972, antes do golpe de Estado de Juan María Bordaberry apoiado por militares em 1973.

Na guerrilha, participou de várias ações que os relatos históricos se encarregaram de mostrar como chave para esse grupo. Entre eles, a preparação do assalto a uma financeira e a falsificação de documentos para os guerrilheiros que buscavam se esconder. Estudou Arquitetura, mas não concluiu o curso. Disputou, sem sucesso, a prefeitura de Montevidéu pelo setor político liderado pelo marido, o Movimento de Participação Popular, em 2015.

É senadora e antes foi deputada. Também chegou a ocupar brevemente a Presidência da República, quando presidente e vice-presidente estiveram ausentes por viagem durante o governo anterior presidido por Mujica (2010-2014). Seu “nome de guerra” nos 1960 era “La tronca”. Foi presa várias vezes, fugiu e voltou a ser detida pela última vez em 1972. Recuperou a liberdade com o fim da ditadura e o retorno da democracia no país em 1985. Desde então, optou pela militância política tradicional e se incorporou em 1989, com alguns de seus companheiros da extinta guerrilha.

Circunstâncias
De fala pausada e declarações muitas vezes polêmicas, Topolansky será a primeira mulher a ocupar a Vice-Presidência do Uruguai. E irá fazê-lo em uma circunstância que dificilmente imaginou: após a renúncia ao cargo do filho do fundador e principal referência dos Tupamaros, Raúl Sendic (pai), um afilhado político do casal Mujica-Topolansky. Topolansky acompanhará Tabaré Vázquez até 2020. Ele assumiu seu segundo mandato em 2015. O primeiro foi de 2005 a 2010. (AFP)