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Processo de paz em colapso Colômbia interrompe negociações com guerrilha ELN após acusar o grupo de "terrorismo" imediatamente após cessar-fogo

Publicação: 11/01/2018 03:00

O processo de paz com a guerrilha do Exército de Libertação Nacional (ELN) vive sua pior crise, após ataques da guerrilha na Colômbia, que deixaram em suspenso a retomada dos diálogos com o governo em Quito. Em uma decisão surpreendente, o presidente Juan Manuel Santos pediu o retorno de seu principal representante nas negociações, Gustavo Bell, no dia seguinte ao fim do primeiro cessar-fogo bilateral, pactuado com o governo rebelde desde o grupo se levantou em armas, em 1964.

Vamos “avaliar o futuro do processo”, disse Santos em mensagem à Nação, após culpar o ELN por “ações terroristas” esta madrugada, que afetaram o transporte de petróleo e, aparentemente, deixaram dois militares feridos no nordeste da Colômbia. A estatal Ecopetrol informou que no total houve quatro ataques contra a infraestrutura petroleira nos departamentos (estados) de Boyacá, Casanare e Arauca.

A partir disso, Santos deixou em suspenso a abertura do quinto ciclo de diálogos de paz, no qual justamente se deveria negociar uma nova trégua. Em Quito, o chefe das negociações do ELN, Pablo Beltrán, assegurou que os “incidentes” ocorreram “em meio à complexa situação do conflito”. “Mas apesar disso, não deve ser alterado o curso das conversações”, ressaltou Beltrán, embora ele tenha admitido que o processo entrou em crise.

Mas “se (o governo) está interessado em que busquemos uma saída para este incidente, se há uma resposta positiva, a delegação (do ELN) permanecerá aqui”, acrescentou. É “impossível (...) escalar o conflito e pretender que dessa forma se dê o acordo”, disse a jornalistas o vice-presidente colombiano, Oscar Naranjo, após participar de uma reunião sobre a Colômbia no Conselho de Segurança da ONU, em Nova York. Deve haver de parte do ELN “expressões de vontade e fatos concretos”, insistiu.

O analista Víctor de Currea-Lugo, especialista na ELN e autor do livro Historias de Guerra para tiempos de paz (Histórias de guerra para tempos de paz, em tradução livre), considerou que o ocorrido poderia levar à ruptura definitiva da mesa de diálogo. “A decisão (das partes) era de não se levantar da mesa independentemente do que acontecesse, mas a gravidade de ter rompido o cessar-fogo desta maneira, e os atentados que acabam de acontecer, tornam irremediável” que estejamos diante da “maior crise”, ressaltou. Por enquanto, Santos e Bell analisarão a ofensiva insurgente e suas “implicações para o futuro da mesa de diálogo”, insistiu o governo em um comunicado.

Incerteza
Após ter assinado um acordo que levou ao desarmamento e à transformação em partido político da guerrilha marxista das Farc, Santos empenhou-se em levar adiante um pacto similar com o ELN e, desta forma, extinguir o último conflito armado do continente que, em meio século, deixou oito milhões de vítimas.

No entanto, em quase um ano de difíceis conversações, apenas conseguiu que os insurgentes aceitem uma trégua, sem que ainda haja maiores avanços nos seis pontos em debate.Durante o cessar-fogo, que esteve vigente de 1º de outubro à meia-noite de terça-feira, não houve confrontos entre militares e guerrilheiros, mas as partes se acusaram de descumprimentos mútuos, relacionados a outros compromissos.

Mas talvez o que mais jogue contra o processo é o tempo: em agosto Santos termina seu segundo e último mandato de quatro anos, com as pesquisas contra ele e uma disputa eleitoral que, mais uma vez, se divide entre os partidários e os críticos dos acordos com os insurgentes. (AFP)