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Preservando um pedaço da história Cabines telefônicas do Reino Unido estão sendo reinventadas

Martine Pauwels
Agência France-Presse

Publicação: 13/01/2018 03:00

“O cheiro é bom”, diz um curioso, ao sentir o odor do novo estofado de uma das icônicas cabines vermelhas de telefone, no centro de Londres, que passaram por uma reformulação para escapar do inevitável desaparecimento decorrente da profusão de celulares. Todos os dias, na hora do almoço, funcionários de escritórios nos arredores da praça Bloomsbury descem para pegar sua comida nessa cabine transformada, e que agora abriga uma geladeira e várias prateleiras, onde se acumulam os pratos. Apreciam, principalmente, as saladas, que serão saboreadas no jardim público que tem perto, em um dia agradável.

Do mesmo modo que este minirrestaurante de comida para viagem, milhares de outras cabines telefônicas de todo Reino Unido ganharam uma nova vida. Apenas um detalhe, neste caso: por conta das baixas temperaturas do inverno, agora essas “lojinhas” voltarão a oferecer refeições apenas na primavera. Com frequência abandonadas e alvo de vândalos, as cabines foram transformadas em bibliotecas, galerias de arte, postos de informação, cafés, restaurantes e até em uma loja de guarda-chuvas.

Centenas de cabines têm agora um caixa automático, outras serão reacomodadas como pontos de distribuição ultrarrápidos de wi-fi, gratuitos e financiados com publicidade. A BT também está considerando a possibilidade de transformar algumas delas em pontos de recarga para veículos elétricos.

Outras são reformadas e vendidas para colecionadores por um preço de saída de 2.750 libras (3.100 euros) mais impostos, ou cedidas por uma quantia simbólica a prefeituras e associações que poderão dar a elas um bom uso. Este programa permitiu salvar mais de 5.000 cabines. “Trata-se de preservar o patrimônio do Reino Unido”, afirmou Mark Johnson.

A empresa Red Kiosk Company, que destina uma parte de sua receita para associações de ajuda à população de rua, é uma das beneficiárias. Com esse método, comprou 124 cabines vermelhas, as quais aluga por 360 libras (410 euros) por mês. “Ao mesmo tempo em que se salva uma obra histórica, cria-se emprego e se revitaliza um lugar”, comentou o diretor da Red Kiosk Company, Edward Ottewell, lamentando que as licenças administrativas às vezes são difíceis de conseguir.

Aluguel
O modesto aluguel permite que jovens empresários - em geral sem condições de enfrentar o elevado preço de um aluguel em Londres - lancem seus projetos. “É o único lugar a que podemos nos permitir, porque é apenas um metro quadrado”, brincou Ben Spier, fundador do bar da Bloomsbury Square.

Curiosamente, a Red Kiosk também tem entre seus clientes uma empresa que repara telefones celulares, a Lovefone. “Um dia me perguntaram se não tinha claustrofobia”, contou à AFP o técnico Fouad Choaibi, que trabalha em uma cabine equipada com uma pequena mesa, prateleiras para as peças e uma pequena estufa. “Respondi que, com um único passo, já estou fora do escritório”, disse, sorrindo.

As cabines
  • 92.000 unidades chegaram a estar funcionando, juntas, no Reino Unido, em 2002
  • 42.000 unidades estão funcionando atualmente
  • 7.000 do total de 42.000 unidades são as famosas cabines vermelhas
  • 20.000 telefones públicos deixarão de existir nos próximos cinco anos, segundo a companhia de telecomunicações BT
  • 5,7 milhões de euros - custo anual da manutenção das cabines
  • 30.000 chamadas são feitas, diariamente, por esses aparelhos
  • 90% - queda do número de chamadas em dez anos
Memória
A cabine telefônica mais conhecida, o modelo K6 de metal vermelho com uma coroa em seus quatro vértices superiores, foi a primeira a ser instalada no país. Foi projetada pelo arquiteto britânico Giles Gilbert Scott para o jubileu de prata do rei George V, em 1935. “Buscamos alternativas para responder às necessidades dos usuários”, disse à AFP Mark Johnson, responsável pela área de telefones públicos da BT. Estas tradicionais cabines telefônicas são as que o Reino Unido manterá funcionando. Em nome da história.