OPINIÃO

E agora?

José Paulo Cavalcanti Filho
Jurista e membro da Academia Pernambucana de Letras

Publicação: 19/05/2017 03:00

Canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece. Palavras de Rubem Braga (em Ai de ti Copacabana). E é mesmo tarde. Para lamentar o que poderia ter sido. Os pecados foram graves demais para serem perdoados. Por mais rezas que sejam encomendadas.

Agora, o que pode acontecer? Duas coisas. Ou o governo continua. Ou acaba. Só continua se for capaz de dar uma explicação razoável para o que aconteceu. O suficiente para permitir alguma sobrevida. Fora disso, melhor esquecer. Se acabar, isso pode ocorrer de três maneiras. Uma é Temer renunciar. Como não tem vice, haveria vacância no cargo. Nesse caso eleição, pelo Congresso, em até 30 dias (Constituição, art. 81). Mais provavelmente, elegendo alguém de fora dele. Outra hipótese é um impeachment. Só que, depois da regulamentação definida pelo Supremo, isso vai consumir quase um ano. E o país não aguenta. Ou o TSE poderá declarar inidônea a chapa Dilma/Temer. E também dá-se a vacância. Eleição indireta, já vimos. Só lembrando que, para ser presidente, o cidadão precisa ser brasileiro nato (Const. art. 12). E ter mais de 35 anos (Const. art. 14).

Na verdade, temos dois lados muito parecidos. Os ministros, hoje, são quase os mesmos de ontem. E não por suas qualidades. A esse novo governo faltou corresponder ao que esperava, dele, o indeterminado cidadão comum do povo. Queríamos que fosse diferente. Não era pedir muito. Sem o pessoal da Lava-Jato ocupando posições importantes. Como antes. Um grande médico na Saúde – e não um deputado qualquer, indicado por partido político. Pena, só, que iríamos ter reformas importantes para o país. Aceitamos tudo em nome dessas reformas. As mesmas que o recém-eleito presidente Macron, da França, está propondo. É que são realidades parecidas. Apenas isso. A economia tem regras próprias. Agora, tudo isso foi para o espaço.

É bom preparar o estômago para um festival de hipocrisia. Com voz de sensatez, muitos defendem a governabilidade. E pedem que Temer renuncie. São os mesmos que, sabendo desde o início ser o impeachment de Dilma inevitável, tudo fizeram para arrastá-lo no tempo. Retardando votações. E recorrendo, ao Supremo, por qualquer coisa banal. Governabilidade, na boca desses, é algo falso. Uma palavra de ordem.

Ou sustentam que Temer deveria sair em nome da ética. E completam, sua pregação interesseira, defendendo eleições diretas. Nada contra. Basta que aceitem não poder ser candidato quem seja réu em processo penal. Se em nome da ética falam, espera-se que não desejem eleger um quase presidiário. A menos que se preocupem apenas em recuperar suas boquinhas.

Agora, só nos cabe esperar. Ou rezar, como queria Rubem Braga. Com dois sentimentos possíveis, no coração. Um, o da desesperança. Como está em Bandeira (Pneumotorax), A única coisa a fazer é tocar um tango argentino. Mas o Brasil é maior que suas elites. Mais amplo que qualquer crise. Por isso prefiro o segundo sentimento, de otimismo, que expresso em palavras redentoras de Manuel Alegre (É preciso um país): É preciso voltar a ter uma raiz/ Um chão para lavrar/ Um chão para florir./ É preciso um país./ É preciso voltar ao ponto de partida/ É preciso ficar e descobrir/ A pátria onde foi traída/ Não só a independência/ Mas a vida.