OPINIÃO

EDITORIAL » Trabalho infantil

Publicação: 16/06/2017 03:00

A sociedade brasileira tem de encarar, sem subterfúgios, o grave problema representado pelos 2,7 milhões de crianças e jovens, entre 5 e 17 anos, inseridos no mercado de trabalho de forma irregular. No Dia Mundial do Combate ao Trabalho Infantil, o país nada teve a festejar, notadamente quando se constata que a mentalidade da população sobre a questão não evoluiu. A realidade é que a exploração do trabalho infantil se tornou sério problema social que pode ser facilmente comprovado nas ruas: vendedores ambulantes, guardadores de carros, malabaristas em sinais luminosos.

Parcela significativa dos brasileiros acha vantajoso começar a exercer atividade produtiva o quanto antes. É melhor, dizem eles, trabalhar do que ir para o crime. Postura equivocada. De acordo com especialistas, não há relação direta entre as duas ações. Se isso fosse verdade, 85% dos presos do Carandiru não teriam começado a trabalhar na infância, como mostra tese do desembargador Ricardo Tadeu Marques da Fonseca, do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) do Paraná.

Ao contrário da crença de parte da sociedade, o trabalho de menores contribui para que número expressivo de jovens deixe a escola ou relaxe nos estudos, o que também contribui para a entrada na criminalidade. A baixa escolaridade constitui traço comum entre a maioria dos presos no Brasil. Mais: sem estudo de qualidade e submetidos a condições de labor inadequadas, o potencial de crescimento profissional dessas pessoas é bem mais baixo.

Estudos recentes do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram a relação entre trabalho precoce e evolução educacional. De acordo com os especialistas do organismo, uma criança que trabalha de forma integral durante a infância tem apenas 25% de chances de concluir o ensino fundamental. Quem labuta dessa maneira tem apenas um quarto de possibilidade de terminar os estudos em comparação com os que não entraram no mercado antes dos 18 anos.

O que preocupa é que, entre os menores que estudam e trabalham, o rendimento costuma ser bem inferior ao dos demais alunos. Geralmente essas crianças demonstram cansaço, são desatentas e, frequentemente, repetentes. Segundo a ministra Kátia Magalhães Arruda, do Tribunal Superior do Trabalho (TST), 90% dos meninos e meninas que trabalham têm algum tipo de defasagem escolar.

Diante de tal quadro, as autoridades devem instrumentalizar as instituições engajadas na luta contra o trabalho infantil para reverter a situação. O Brasil não pode continuar fazendo parte de mais uma lista que manche a imagem do país diante da própria sociedade.