OPINIÃO

Uma casa emblemática

Marcus Prado
Jornalista

Publicação: 16/06/2017 03:00

As muitas casas, dentro e fora do Brasil, que deixaram na minha memória generosas recordações, serão vistas no meu livro, em fase final de releitura crítica e revisão: O Tigre Anfíbio, iniciado há mais dez anos. A primeira forte lembrança que descrevo, entre outras para mim surpreendentes, foi ao conhecer a cabana de Martin Heidegger, na Floresta Negra (Alemanha). Fica numa aldeia chamada Todtnauberg, no município de Todtnau, região de Baden-Württemberg. A poucos quilômetros, fica a cidade de Friburgo, onde Heidegger lecionava. Foi perto dessa cabana que o filósofo tinha o hábito de  acender uma fogueira e, ao redor da chama e do seu calor, se reunia longamente com os camponeses e lenhadores da Floresta. A lenha era colhida na mata, um trabalho cansativo para Heidegger, como também seriam cansativas as caminhadas diárias, balde caseiro à mão, em busca de água para o consumo da cabana. A lenha era extraída das chamadas árvores perenes como nogueira, carvalho, bordo, cedro e amieiro. A água era obtida a partir de uma fonte natural nas imediações da cabana.

O curioso é que, segundo seus biógrafos, não havia quase nada a conversar, ficavam em silêncio, esses vultos e suas aparências alegóricas. Uma provável comunhão coletiva da vida com o fogo, sua mística, sua magia, uma talvez reflexão sobre a existência, tão saliente no universo de Gaston Bachelard. A luz imaginária partindo de uma simples fogueira, essa luz nascida em nosso ser, não por acaso uma clareira no entrecruzamento de caminhos.

A seus olhos, o pensamento mais claro tinha um camponês que nada sabia de filosofia. A cabana era uma constante companheira no diálogo do mestre alemão consigo mesmo. A permanente silhueta da cabana nas tardes de neblina, em meio aos robustos pés de árvores centenárias.

Sabe-se que foi nessa cabana, numa simplicidade rude e campestre, (ao seu lado, a mulher, Elfriede), que ele iria construir a essência de sua filosofia e o seu modo de ver o mundo, o ser e nossa dimensão de existencialidade. Ambiente propício à sua vasta produtividade teórica Nessa cabana, Heidegger pensou o espaço a partir de sua vinculação ontológica com a noção de lugar, o processo incessante de autocompreensão da existência que predominaria no seu agir filosófico: demonstrar o tempo como horizonte de compreensão do ser. Dasein que se abriga dentro do ser, impingindo-lhe consciência de finitude, a percepção da totalidade. A natureza como sagrado, onipresente e poderosa. A natureza tal qual foi pressagiado em Fenomenologia da Vida Religiosa, o projeto heideggeriano de superação da metafísica.

O peculiar cognome Filósofo da Floresta Negra não foi dado a Martin Heidegger por acaso.