OPINIÃO

Grito ético

Fernando Araújo *

Publicação: 17/07/2017 03:00

A história da humanidade é marcada por apelos éticos. A tragédia grega assinala, por exemplo, a ação de Antígona, que enfrentou o rei Creonte, por ter ele decretado a morte de seu irmão, Polinices, com pena acessória injusta, a de que o corpo dele permaneceria insepulto, a fim de que os cães e a aves de rapina o dilacerassem, decisão essa em total confronto com os mandamentos dos deuses do Olimpo, que estabeleciam ter as famílias direito de prantear e sepultar seus entes queridos. Agora, tantos séculos depois, mais um grito em favor dos direitos humanos se ouve. Na cidade alemã de Hamburgo, na sexta-feira 7 próxima-passada, milhares de pessoas saíram às ruas para protestar. A cúpula do G20 – Grupo dos vinte países mais ricos do mundo, ouviu o grito ético de integrantes de diversas ONGs, movimentos ecopacifistas, da ATTA – Associação pela Tributação das Transações Financeiras para Ajuda aos Cidadãos, entre outros. Deram o recado. Foram dizer que o capitalismo precisa mudar seu rumo. Urge que ele se humanize. Aproveitaram exatamente a pauta do encontro: economia global, mudança climática, desenvolvimento sustentável, combate à corrupção, migração e refugiados, empoderamento econômico feminino, entre outros. A voz rouca das ruas ecoava e dizia que a fome se agrava no mundo; que a riqueza é cada vez mais concentrada entre esses países, apesar da enorme contradição dentro de seus próprios territórios, onde há concentração da concentração. O G20 soma 80% do PIB e 75% do comércio mundiais. As estatísticas dão razão aos manifestantes, pois 2,2 bilhões de pessoas passam fome no mundo, segundo o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. E no meio desse contingente, 842 milhões têm crise de fome crônica. No Brasil, 32 milhões de habitantes passam fome, índice que vinha sendo atenuado com programas sociais como o Bolsa Família. Apesar dos mais de 4143 trilhões que o país gerou em seu PIB no ano passado, a fome aumenta. E mais ainda a concentração de riqueza, principalmente nas regiões Sul e Sudeste. A anfitriã do Encontro, a primeira ministra Angela Merkel reagiu bem às manifestações, ao reconhecer que não basta o desenvolvimento econômico, mas o crescimento sustentável. E que o desafio não se resume a cada um buscar a sua própria prosperidade, senão a prosperidade conjunta, inclusive e principalmente a dos que estão fora do Bloco, dado o estado de pobreza. No seu discurso, o reconhecimento indireto da legitimidade dos protestos, como que aceitando a tese de que é preciso cuidar desses temas para que o Estado cuide. Ou seja, “poder que serve a si mesmo, não serve”. Daí a oportunidade das palavras de Frei Betto: “Temos que governar os políticos e fazer com que governem para o povo” (2015/64).

* Advogado, professor, mestre e doutor em Direito