OPINIÃO

Recuperação

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois, presidente da Datamétrica e do Diario de Pernambuco

Publicação: 12/08/2017 03:00

Após a vitória do presidente Temer na votação que poderia tê-lo afastado da Presidência, o governo tem focado nas reformas, com ênfase na da Previdência e no controle do orçamento, tentando fechar o orçamento dentro da meta de déficit primário que foi estabelecida. O perigo agora é que não seja mais possível sequer cumprir o teto dos gastos, pois as previsões do momento são de que o déficit primário pode exceder R$ 159,0 bilhões e, com isso, teria crescimento acima do previsto pela Lei do teto. Ventilou-se novos aumentos de impostos e o governo federal resolveu deixar a medida provisória da reoneração da folha de pagamentos caducar, pois não conseguiu segurança na base de apoio para realizar o trâmite na velocidade necessária paté o limite legal.

Enquanto o governo se debate com os problemas fiscais e as dificuldades de mobilizar o apoio necessário no congresso para aprovar as medidas que precisa para manter a governabilidade, o setor privado ainda sofre com a extensão da crise, que claramente se estendeu após a nova crise política gerada pelas denúncias da JBS. Antes do acontecido os sinais de recuperação eram mais fortes. Os agentes privados se movimentavam mais fortemente para retomar investimentos. Após o ocorrido, houve um novo freio nessas intenções. Os empresários se puseram em compasso de espera. Após a votação pró-Temer, os primeiros movimentos começam a surgir, mas ainda muito tímidos e lentos. Ou seja, a recuperação será bem mais lenta do que parecia que seria, antes do escândalo envolvendo o presidente.

O curto período que falta para a substituição do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, ainda representa uma ameaça por causa das novas peças que virão tentando envolver o presidente em crimes que podem afastá-lo do poder. Por consequência, essa possibilidade também contribui para que os empresários permaneçam esperando por maior clareza quanto ao futuro político do país. Apesar do tímido aumento do emprego em Julho apontado recentemente pelo Caged, a economia continua se movendo lentamente e deverá fazê-lo nos próximos trinta dias.

A situação em Pernambuco não difere muito da brasileira. A crise econômica foi mais forte por aqui, já que tínhamos muita dependência de investimentos quando ela tomou conta da economia brasileira. Além disso, como ela foi originada no setor público, estados mais pobres sofreram mais. Estamos entre esses no contexto da federação. A retomada dos investimentos ainda está muito lenta no nosso estado. A sua aceleração demandaria um posicionamento mais cooperativo entre as forças políticas do estado com vistas a se mobilizarem em torno de alguns projetos importantes. Mas também há hoje uma disputa forte entre as forças políticas que já se preparam para as eleições de 2018. Nesse cenário, os interesses da população do estado muitas vezes são deixados em segundo plano pelas forças políticas, que concentram seu foco em estratégia com benefícios individuais que possam fortalecê-las nas próximas eleições. Ou seja, a recuperação por aqui deverá seguir o padrão nacional.