OPINIÃO

Valeu torcida do Sport

Aurélio Molina
Ph.D, professor da UPE e membro das Academias Pernambucanas de Ciências e de Medicina

Publicação: 12/08/2017 03:00

Carioca, da Tijuca dos “Anos Dourados”, nasci torcedor fanático do Fluminense Football Club, o clube que “jamais passará”. Aliás, já era Fluminense em outras encarnações. Quando criança chorava inconsolável se, ao acordar, recebesse a notícia que meu time tinha perdido. Fui crescendo e o amor incondicional pelo tricolor das Laranjeiras só aumentava. Mas o destino quis que me tornasse “cariocano”, “pernambuoca”, “pernambucano de coração” e, finalmente, cidadão honorário. Quando aqui aportei, em 1985, decidi escolher um time para torcer. Só não podia ser Santa Cruz, pois apesar de ambos serem tricolores, ele era o time da mãe de meus filhos que, ao chegar ao Rio, resolveu torcer pelo nosso “filho ingrato, invejoso e complexado” (o Flamengo). Nem Sport, porque suas cores também lembravam o time fundado pelos “traíras” de 1911, que não aceitaram a criação da função de técnico de futebol (apesar de uma ligação afetiva, já que o Fluminense “doou” a primeira arquibancada para o time da Ilha do Retiro, quando da construção do Estádio das Laranjeiras). Fiquei dividido entre o Central de Caruaru (que havia sido “garfado” numa final do campeonato pernambucano) e o Náutico, que também tinha uma relação muito especial com o Fluminense (na década de 70 os sócios podiam frequentar ambas as sedes). Acabei me tornando alvirrubro. Entretanto, ao retornar de um longo período na Inglaterra, influenciado por minha filha mais velha, virei a casaca e me tornei um torcedor rubro-negro. Paralelamente, o Fluminense entrava na pior fase de sua história, necessitando de um apoio extra de seus “adoradores”. Não nos furtamos e, inclusive, fundamos a Reciflu. Aos poucos tudo foi ficando novamente “justo e perfeito” até o dia de um fatídico Sport X Fluminense, num domingo de 2000, na Ilha, onde eu e meus filhos pequenos quase fomos agredidos (ou algo muito pior, se não fosse a presteza da Polícia Militar e a nossa “capacidade de fuga”), ainda dentro do estádio, por um grupo de “pseudo torcedores”. O trauma foi tão grande que daquele dia em diante voltamos a ser alvirrubros. Mas nesses tempos tão violentos, dentro e fora dos estádios, não é que a torcida rubro-negra presenteia todo o Brasil com uma comovente demonstração de educação e solidariedade? Sim senhores. No último dia 2 de agosto, espontaneamente, ela aplaudiu de pé, calorosamente, o técnico do time adversário (Abel Braga, do Fluminense) que acabava de sofrer o mais duro golpe que um ser humano pode suportar, isto é, a perda de um filho/a. Todos os presentes se emocionaram e muitos até verteram lágrimas. Um ou dois minutos que pareceram uma eternidade. Naquele momento, mais uma vez, senti um enorme orgulho de ser pernambucano e nordestino, pois aqueles que são alvos de tantas humilhações e preconceitos estavam ali dando, exemplarmente, um “banho de civilidade”. E, pessoalmente, através da linguagem do coração, também “entendi” aquele momento como um “pedido de desculpas” pelo ocorrido há 17 anos. Portanto, depois dessa efeméride, em qualquer contexto, apesar de continuar sendo torcedor do Fluminense e do Náutico, ninguém mais fala mal do Sport Club do Recife, e de sua torcida, na minha frente. Saudações tricolores e alvirrubras!