OPINIÃO

EDITORIAL » A má-formação dos novos médicos

Publicação: 13/09/2017 03:00

Uma denúncia feita ontem pelo diretor do Hospital estadual Mestre Vitalino, situado em Caruaru e que atende a região do Agreste, o médico João Veiga, faz soar um alerta para a população. Segundo João Veiga, a má-formação de estudantes de cursos de medicina de Pernambuco e estados vizinhos, como Paraíba e Ceará, tem colocado no mercado profissionais “desqualificados”. Para ele, grande parte do problema que envolve a nova geração deve ser atribuída a cursos ministrados em faculdades particulares “precaríssimas”, que muitas vezes sequer contam com um hospital para oferecer um estágio ou treino prático. Parte desses, que estudam só seis anos e não fazem residência, começam a “atender o povo”.

João Veiga tratou do assunto quando falava sobre a superlotação das instituições de saúde, a falta de leitos e o debate frequente sobre o número de médicos para atender à população. Há um déficit, mas, de acordo com o diretor, o mercado não dispõe do profissional de que se necessita. Muitos não possuem uma residência, a exemplo de cirurgia ou cardiologia - algumas das especialidades demandadas por hospitais de grande porte. Não há interesse e, quando surgem vagas, elas não são preenchidas porque os recém-graduados não conseguem ser aprovados nas provas.

O atrativo financeiro, apesar de alto em uma comparação com outras profissões e com a média salarial do Brasil, não parece suficiente para motivar uma demanda: hoje, revela o diretor, paga-se um salário mensal que varia de R$ 10 mil e R$ 14 mil para que um médico especialista dê um plantão semanal de 24 horas.

João Veiga chegou a relatar um teste realizado para verificar a capacidade de um grupo em entubar um paciente: 90% dos participantes foram reprovados. “Está se formando médicos da pior maneira possível”, pontuou. O quadro nas equipes de enfermagem é ainda mais preocupante pelo “baixo nível” das escolas de formação, completou em entrevista concedida à Rádio Jornal.

Contou ainda seu temor de precisar um dia de atendimento e ficar aos cuidados de um dos médicos oriundos de uma dessas instituições com estruturas precárias. Se ele, que tem conhecimento e prestígio, tem essa insegurança, imagina-se a massa de gente que chega nas emergências vulnerável e confiando no diagnóstico de um profissional supostamente capaz. Como diz o próprio diretor do Hospital Mestre Vitalino, “a situação é grave”.