OPINIÃO

Rebaixamento do rating do Brasil

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicação: 13/01/2018 03:00

O Brasil teve seu rating, medida proporcionalmente inversa ao risco de investimentos no país, reduzido pela Standard & Poor´s (S&P), uma das mais importantes agências de avaliação de riscos dos EUA. Alguns tendem a alardear como um problema sério essa queda na “imagem” do Brasil. Entretanto, se esse fato tiver alguma relevância que seja, ela seguramente é positiva para nossa economia, apesar de ideólogos do setor financeiro tentarem convencer do contrário. Poderemos acelerar nossa recuperação se alguém levar a sério essa alteração na avaliação da S&P.

Antes de tudo vale lembrar que a S&P é uma daquelas agências de avaliação de risco que transformava cestas de junk bonds em triple-A e que esteve no coração da crise do subprime em 2008 pelos absurdos que cometiam. Por esse tipo de erro, ela em si já é uma agência com moral e discernimento duvidosos. Além disso, ninguém que queira investir no setor real brasileiro vai se incomodar com a avaliação da S&P. O atrativo da economia brasileira advém do tamanho do mercado, predomínio de valores ocidentais e estabilidade da democracia. Ele não está relacionado à atratividade de fluxos de capitais especulativos de curto prazo, que esses sim podem ser influenciados pelas avaliações de risco das agências de rating por causa de limites legais impostos nos EUA.

A redução da avaliação do Brasil por uma das principais agências americanas deve desvalorizar um pouco mais o Real perante o dólar, o que poderá acelerar ainda mais a recuperação econômica a partir de maior competitividade de nossa indústria frente a produtos importados e ainda maior competitividade de nossas exportações. Como consequência, o setor externo deverá contribuir ainda mais para a recuperação já iniciada. O seu possível impacto positivo na taxa de juros será pequeno, se houver, pois estamos ainda em processo de redução dela e com percepção clara de que a sua média recente foi mais elevada do que o necessário. Além disso, haverá maior liberdade para que o Banco Central conduza a política monetária, pois o risco de avalanches especulativas de dólares para o país será reduzido. Essa queda no rating poderá forçar a saída de alguns investimentos financeiros de estrangeiros no Brasil, o que poderá ajudar o Banco Central a se desfazer de um pouco de reservas e com isso reduzir o custo da dívida interna e o déficit público nominal.

Obviamente, é importante que o Banco Central entenda que precisa evitar escassez de liquidez para investimentos na economia, o que implica em mudanças de regras de depósitos compulsórios e de remuneração de reservas. Controle de tarifas bancárias e redução de IOF poderiam também facilitar o crédito e com isso elevar a liquidez do sistema, sem necessitar de que haja entradas de capitais estrangeiros motivadas pela boa avaliação do Brasil por agências de risco. Ou seja, basta alguns ajustes na política monetária para que o rebaixamento não gere transtornos. Ele pode ser transformado em algo positivo para a economia brasileira, se bem administrado.