OPINIÃO

A queda na Selic foi suficiente?

Alexandre Rands Barros
Economista, PhD pela Universidade de Illinois e presidente do Diario de Pernambuco

Publicação: 10/02/2018 03:00

Essa semana o Copom (Comitê de Política Monetária) reduziu a taxa Selic para 6,75%, a menor desde 1999. A informação foi noticiada como uma grande realização e houve sinalização do Copom que poderia ser o fim de uma tendência a quedas sucessivas dessa taxa. A divulgação do IPCA de janeiro, contudo, que ficou em 0,29%, já levou a uma mudança em tal perspectiva, pois surpreendeu os analistas de mercado com desempenho da inflação aquém do esperado e colocou-a em uma taxa anualizada de 3,5%. A consequência da inflação de janeiro e as expectativas futuras para o IPCA é que a redução da Selic anunciada tenha sido conservadora, pois a taxa de juros real, a que é mais relevante, subiu recentemente e persiste em valores elevados, pois a queda da Selic foi acompanhada por quedas paralelas da inflação esperada. Vários outros indicadores têm também mostrado que a queda na Selic está aquém do que seria adequado na economia brasileira hoje. Consequentemente, o Brasil precisa de mais reduções dessa taxa, pois a taxa de juros real ainda está muito elevada para uma economia ainda muito deprimida. O Banco Central e o Copom precisam de ser mais audaciosos para reduzir o sofrimento da população com o desemprego elevado e a ainda persistente depressão da renda.

Apesar de ser a menor taxa de juros básica da economia desde 1999, a inflação também bateu seus recordes de valores baixos e as expectativas futuras são de taxas ainda muito baixas. Isso é um ponto positivo para a economia, mas tem sido obtida a custos elevados de emprego e renda da população. Mesmo o emprego tendo reagido nos últimos meses, ele o fez de forma muito lenta. Também o crescimento do PIB tem sido lento em um período de recuperação que realmente sinalize para um período de expansão. Poucas vezes o país saiu de uma recessão se arrastando de forma tão lenta. A consequência tem sido que o sacrifício imposto à população tem sido bem maior do que o necessário. Poderíamos estar com crescimento do PIB a taxas muito mais elevadas e com uma agenda econômica bem mais positiva.

Além disso, observa-se uma tendência clara de valorização cambial desde 2016, mesmo que lenta. Isso vai corroendo lentamente a competitividade de nossas exportações, o que pode comprometer o vigor de qualquer retomada mais rápida por causa da enxurrada de importações que pode causar caso a renda comece a se elevar de forma um pouco mais rápida. Isso é mais uma evidência da inadequação do ritmo da queda na taxa de juros. Com juros menores, haveria menor entrada de capital estrangeiro em nossa economia e com isso a taxa de câmbio não se valorizaria. A recuperação da renda e do emprego, então, seria mais rápida.

A disponibilidade de crédito para os agentes locais, apesar de começar a reagir, ainda está crescendo em ritmo muito lento, também atrasando o crescimento da economia. Isso de certa forma também é consequência do conservadorismo da política monetária. Poderíamos estar com crescimento do consumo e do investimento a ritmos mais acelerados e com isso o emprego e a renda também cresceriam em ritmos mais elevados. Essas expansões teriam muito pouco impacto na inflação, dada a capacidade ociosa existente na economia. Ou seja, elas não comprometeriam de forma relevante a estabilidade monetária. Ou seja, as evoluções das taxas de juros e de câmbio reais, da inflação, do emprego e da renda, além da disponibilidade de crédito, todos têm dado sinais de que a política monetária está muito conservadora. Paralelamente, os bancos continuam a bater recordes de lucros, indicando a mesma coisa. Disso tudo pode se concluir que a taxa de juros Selic pode cair ainda mais rápido. Os sacrifícios impostos à população com nível elevado de desemprego e reação lenta da renda podem ser menores, sem comprometer a estabilidade monetária.