Buraco invencível

Aluísio Xavier
Advogado e ex-presidente da OAB/PE

Publicação: 13/03/2018 03:00

Não tenho opinião formada sobre fantasmas. Há pessoas que afirmam a sua existência e uma me assegurou que um deles habita o leito da Rua das Graças, esquina com a Rua Manoel de Almeida, sendo profundo desafeto da administração pública, não lhe possibilitando ter êxito na conclusão de um trabalho que, aos olhos do leigo, trata-se afinal de conseguir manter firme o pavimento da via, para suportar o tráfego de veículos. Ou seja: não permitir que um grande buraco reabra constantemente, na confluência das referidas ruas. Com certeza, pelo menos uma dezena de vezes, já se fez o trabalho de vedação do buraco, mas ele ressurge. Atualmente, outra intervenção está em curso, alguns poucos meses após novo inexitoso conserto. Na verdade, a não resolução do problema implica retenção do trânsito e gasto injustificável do dinheiro público, além de demonstrar profunda incompetência governamental. Sei que a autoridade pública poderá apresentar explicações técnicas para a sua ineficiência, mas o fato incontestável é que, até hoje, não conseguiu resolver a situação.

Se é verdade que existe o fantasma graciano, ele difere dos que habitam antigos castelos ingleses mal-assombrados, os quais somente impõem medo às pessoas. Não se identifica, portanto, com os do Chillingan Castle, como o garoto conhecido por Menino Radiante ou Boy Blue, cujos gritos ecoam à meia-noite em alguns cômodos do castelo, após o que ele aparece todo vestido de azul; ou Lady Mary Berkeley, que morreu de tanta tristeza por ter sido abandonada pelo marido com a filha recém-nascida, também com aparições narradas no mesmo castelo. Talvez o fantasma das Graças, pela sua irracionalidade de derrotar permanentemente a administração pública e impor graves prejuízos financeiros ao contribuinte, tenha  proximidade com o seu colega da República Tcheca (Houska Castle), que é um monstro parte humano, parte rã e parte cão.

Abstraindo a existência do fantasma, lembrei-me de dois profissionais, de qualificações absolutamente distintas, que certamente ajudariam a administração pública a solucionar o seu terrível problema, mas ambos estão mortos. O primeiro deles o notável calculista estrutural pernambucano Joaquim Cardozo, celebrizado pelos seus trabalhos que permitiram a realização de obras arquitetônicas de grande vulto, a exemplo da Catedral de Brasília, do Palácio do Planalto, do Palácio da Alvorada e do Congresso Nacional. Certamente Cardozo, em pouco tempo, faria os cálculos corretos e encerraria de vez o drama do buraco invencível. O outro era pedreiro na minha estimada Vitória de Santo Antão, conhecido na nossa casa como compadre Florentino, em razão de os meus queridos genitores serem padrinhos de um filho seu. Ele era cego de um olho, razão pela qual tinha alguma dificuldade no prumo, mas somente nisso. Lembro-me de uma vez que, responsável pela construção de um jardim, a divisória deste apresentou pequena sinuosidade, quando deveria ser totalmente reta. No mais, as casas que construía não desabavam; e os buracos que tapava somente abriam à picareta.

Somente me resta ter saudades de Cardozo e Florentino.