POLÍTICA

Sem renúncia, Temer vai para 'o enfrentamento'

Publicação: 19/05/2017 03:00

Após as 24 horas mais tensas de seu primeiro ano de mandato como presidente da República, Michel Temer orientou a equipe a “partir para o enfrentamento”, na tentativa de mostrar que não está acuado com as delações feitas pela JBS nem com o inquérito autorizado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) para investigá-lo. A renúncia, especulada por muitos no início do dia de ontem, perdeu força ao entardecer e foi veementemente negada pelo peemedebista diante das câmeras.

Nas conversas de ontem, em seu gabinete, no Palácio do Planalto, Temer pediu “resistência” aos partidos da base aliada, do PSDB ao PP, e cobrou apoio à agenda das reformas. O presidente chegou a ser aconselhado a renunciar por pelo menos dois assessores de sua extrema confiança e reagiu com nervosismo. “Não sou homem de cair de joelhos. Caio de pé”, afirmou.

“Michel, você está passando pelo que eu passei. A diferença é que eu era senador e podia responder e você é presidente e não pode falar tudo o que pensa”, disse-lhe mais tarde o líder do governo no Senado, Romero Jucá (PMDB-RR). Presidente do PMDB, Jucá deixou o Ministério do Planejamento em maio do ano passado, após 12 dias no cargo, quando vieram à tona gravações em que ele dizia ser preciso impedir a “sangria” da Lava-Jato.

A portas fechadas, Temer usou termos como “conspiração” e “ação orquestrada” para se referir ao vazamento das delações do empresário Joesley Batista e de ex-executivos da JBS. O governo responsabilizou a Procuradoria-Geral da República pela divulgação dos depoimentos. Irritado, Temer disse que toda vez que a economia dá sinais de recuperação, aparece delação.

Temer telefonou logo cedo para a presidente do STF, Cármen Lúcia, avisando-lhe de que pediria acesso aos áudios. A conversa entre os dois foi protocolar. Ao longo do dia, o presidente recebeu 14 dos 28 ministros e lamentou o destino do senador afastado Aécio Neves (PSDB-MG). “Sem o PSDB, o governo acaba”, disse um ministro.

Foi a equipe de comunicação que estipulou 16h como horário-limite do pronunciamento, porque pipocavam notícias sobre uma possível renúncia e o mercado estava agitado. “Não poderíamos deixar essa onda crescer”, disse Jucá.

O discurso passou pelo ministro-chefe da Secretaria-Geral, Moreira Franco, mas na última hora Temer fez retoques, reforçando o tom de indignação. Questionado se haveria clima para aprovar mudanças na Previdência e na lei trabalhista, Jucá disse que o governo votará as “reformas possíveis”. Apesar da tensão, um aliado não perdeu o bom humor e disse que era “mais fácil cair o Trump do que o Michel”.

Impeachment
Até a noite de ontem, a Câmara dos Deputados havia recebido oito pedidos de impeachment do presidente Michel Temer. Além de parlamentares da oposição, um grupo de ao menos sete parlamentares do PSDB, considerado o principal aliado do governo, protocolou um desses pedidos. A ação foi articulada pelo deputado João Gualberto (BA). O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), afirmou ontem que ainda não tomou decisão sobre os pedidos. “Não posso falar daquilo que não li”, disse.

Já para o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, a saída para “aqueles políticos atingidos pelas delações” da JBS é dar explicações. E, caso não sejam convincentes, FHC afirma em uma postagem do Facebook que os envolvidos devem “renunciar para acabar com a crise política no país”. (Da redação com AE)

Diálogo entre Temer e Joesley Batista

BATISTA: Eu vou falar assim... Dentro do possível eu fiz o máximo que deu ali, zerei tudo, o que tinha de uma pendência daqui pra ali, zerou, tal, tal. E ele (Cunha) foi firme em cima, ele já tava lá (na cadeia), veio, cobrou, tá, tá, tal, eu acelerei o passo e tirei da frente. O outro menino, o companheiro dele que tá aqui, né... O Geddel sempre tava...

TEMER: (inaudível)

BATISTA: Isso, isso. O Geddel é que andava sempre ali, também, com esse negócio, eu perdi o contato, ele virou investigado e agora eu não posso também encontrar ele.

TEMER: É, cuidado, tá complicado. (Inaudível) não parecer obstrução à Justiça. (inaudível)

BATISTA: Isso. Isso. Esse negócio dos vazamentos, o telefone lá do (inaudível) com Geddel, volta e meia citava uma coisa meio tangenciando a nós, a não sei o quê. Eu tô lá me defendendo. Como é que eu... O que que eu mais ou menos dei conta de fazer até agora. Eu tô de bem com o Eduardo, ok?

TEMER: Tem que manter isso, viu? (inaudível)

BATISTA: (falando mais baixo) Todo mês...

TEMER: (inaudível)

BATISTA: Também. Eu tô segurando as pontas, tô indo. Meus processos, eu tô meio enrolado aqui, né (Brasília). No processo, assim...

TEMER: (inaudível)

BATISTA: Isso, isso, é, é investigado. Não tenho ainda a denúncia (contra ele). Aqui eu dei conta de um lado, o juiz, dar uma segurada, do outro lado, o juiz substituto, que é um cara que fica.... (inaudível) Tô segurando os dois. Consegui um procurador dentro da força tarefa, que tá, também tá me dando informação. E lá que eu tô para dar conta de trocar o procurador que tá atrás de mim. Ô, se eu der conta, tem o lado bom e o lado ruim. O lado bom é que dá uma esfriada até o outro chegar e tal. O lado ruim é que se vem um cara com raiva, com não sei o quê...

TEMER: (inaudível) ajudando.

BATISTA: Tá me ajudando tá bom, beleza. Agora, o principal... O que tá me investigando. Eu consegui colar um (procurador) no grupo. Agora eu tô tentando trocar...

TEMER: O que tá... (inaudível).

BATISTA: Isso! Tamo nessa aí. Então tá meio assim, ele saiu de férias, até essa semana eu fiquei preocupado porque até saiu um burburinho de que iam trocar ele, não sei o quê, fico com medo. Eu tô só contando essa história para dizer que estou me defendendo aí, to me segurando. Os dois lá estão mantendo, tudo bem.