POLÍTICA

Para Lula, Palocci agora é 'calculista' Em novo depoimento ao juiz Sérgio Moro, ex-presidente nega todas as acusações feitas pelo seu ex-ministro da Fazenda e volta a atacar a Lava-Jato

Publicação: 14/09/2017 03:00

Em pouco menos de duas horas de depoimento ao juiz Sergio Moro, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chamou o ex-ministro Antonio Palocci de “calculista, frio e simulador”, e negou que tenha feito qualquer tipo de acerto ilícito com a empreiteira Odebrecht. “Se ele (Palocci) fosse um objeto, seria um simulador”, afirmou. Lula prestou seu segundo depoimento a Moro ontem, uma semana depois que seu ex-ministro da Fazenda afirmou que o petista avalizou um “pacto de sangue” com a Odebrecht, com o pagamento de R$ 300 milhões em vantagens indevidas em troca de manter o protagonismo da empreiteira no governo. O terreno ao instituto estaria incluído nesse valor.

Nesta ação, ele é acusado de se beneficiar de vantagens indevidas pagas pela empreiteira Odebrecht – incluindo a compra de um terreno que seria destinado ao Instituto Lula, e cuja negociação teria sido intermediada por Palocci.

O ex-presidente disse que Palocci nem sequer era responsável por assuntos do Instituto Lula (o que caberia ao seu presidente Paulo Okamotto), e afirmou que só se encontrava com o ex-ministro, depois de sua saída do governo, “de oito em oito meses”.

Encontro
Durante a audiência, o Ministério Público Federal ainda apresentou uma pauta de reunião de Emílio Odebrecht, patriarca da empreiteira, com Lula, que foi entregue à investigação. A reunião teria ocorrido no dia 30 de dezembro de 2010, nos estertores do governo Lula, no Palácio do Planalto. No documento, o primeiro item da pauta é a “‘Passagem’ do histórico de parceria” – o que seria uma referência à troca de governo, de Lula para Dilma, e ao acerto ilícito feito com o intermédio de Palocci.

Na mesma agenda, ainda são listados, debaixo do título “Com ele”, os itens: “Estádio Corinthians, Obras Sítio, 1ª Palestra Angola e Instituto”. O petista disse que o documento é falso e “uma mentira”. O advogado de Palocci, Adriano Bretas, afirmou que “dissimulado é ele (Lula), que nega tudo o que lhe contraria e teve a pachorra de dizer que se encontrava raramente com o Palocci”. “Enquanto o Palocci mantinha o silêncio, ele era inteligente e virtuoso; depois que resolveu falar a verdade, passou a ser tido como calculista e dissimulado”, afirmou o defensor, em nota. “Essa é a lógica dele: os que o acusam mentem, os documentos são falsos, e só ele diz a verdade.”

Lava-Jato
O ex-presidente Lula fez duras críticas ao Ministério Público Federal e à Operação Lava-Jato, e a acusou de promover uma “caça às bruxas”. “O que menos preocupa vocês agora é prova”, disse Lula. “O objetivo é tentar encontrar alguém para me criminalizar. Esse é o objetivo.”

Para ele, a Lava-Jato ficou “refém da imprensa”. “Nós estamos vendo o que está acontecendo com o (Rodrigo) Janot”, disse, se referindo ao procurador-geral da República, que ameaça anular acordos de delação premiada com executivos da JBS.

Em outro momento, ao ser questionado sobre documentos encontrados em sua casa, o petista disse que “tem muita suspeita da Polícia Federal nessas ocupações”, referindo-se às buscas e apreensões. Por diversas vezes, Lula fez referência ao “Ministério Público da Lava-Jato”, afirmando que o órgão enveredou por um caminho para incriminá-lo e que “contaram uma grande mentira com PowerPoint”, em alusão à entrevista coletiva com o procurador Deltan Dallagnol.

Na chegada à Justiça Federal, o ex-presidente foi ovacionado e escoltado por militantes e lideranças petistas. Cerca de 300 apoiadores estiveram nos pontos de bloqueio feitos pela Polícia Militar, nas ruas próximas ao prédio da Justiça. Lula chegou de carro, desceu para abraçar e cumprimentar os manifestantes, e voltou para o veículo. (Folhapress e Agência Estado)