POLÍTICA

Um defensor da democracia Empresário e político Armando Monteiro Filho, que encampou o fim do Estado Novo e da Ditadura Militar, faleceu ontem aos 92 anos no Recife

Leonardo Malafaia
Especial para o Diario
leonardo.malafaia@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 03/01/2018 03:00

De enorme prestígio no meio político e econômico, faleceu ontem de manhã, de causas naturais, aos 92 anos, em sua residência na Zona Sul do Recife, Armando Monteiro Filho. Genro do ex-governador Agamemnon Magalhães, dividiu as atividades empresariais - foi dono do banco Mercantil de Pernambuco, além de outras empresas nas áreas agropecuária e comercial - com a política, tendo sido deputado estadual e deputado federal, ministro da Agricultura no governo João Goulart e ferrenho opositor aos regimes do Estado Novo (1937-1945) e da ditadura militar de 1964. Hoje, a partir das 10h, será realizada uma missão no Cemitério Morada da Paz, no Paulista, onde, em seguida, ocorrerá a cerimônia de cremação. Armando foi casado com Maria do Carmo Magalhães Queiróz Monteiro, e deixou cinco filhos, Maria Lecticia, Armando Monteiro Neto (senador do PTB), Sérgio (falecido aos 15 anos), Eduardo e Horácio, oito netos e seis bisnetos.

O ex-ministro ingressou na Escola de Engenharia da Universidade de Recife em 1945. Lá, participou ativamente da política, colocando-se como oposição ao presidente Getulio Vargas. Em 1950, foi eleito deputado estadual pelo Partido Social Democrático (PSD), no entanto, não chegou a assumir o cargo, devido ao parentesco com o sogro, Agamemnon Magalhães, à época governador do estado.

No ano seguinte, obteve a suplência nas eleições suplementares para a Assembleia Legislativa de Pernambuco. Ainda em 1951, foi nomeado secretário estadual de Viação e Obras Públicas. Nesse cargo, permaneceu até 1954, quando assumiu a vaga aberta na Alepe.

Em outubro de 1954, como candidato pelo PSD, foi eleito o deputado federal mais votado, sendo reeleito em 1958. Foi em seu segundo mandato que participou da elaboração do projeto que criou, em 1959, o Conselho de Desenvolvimento Econômico do Nordeste, base para o que viria a ser a constituição da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) no final do mesmo ano.

Após a renúncia de Jânio Quadros, em 25 de agosto de 1961, como forma de manter e garantir a ascensão de João Goulart (vice-presidente), Monteiro Filho votou de forma favorável à emenda constitucional que instituiu o regime parlamentarista. Diante dos trabalhos, ele e Tancredo Neves, foram, respectivamente, o primeiro indicado e o segundo nomeado ministro da Agricultura e primeiro-ministro.

À frente da pasta, Armando teve como objetivo reforçar a sua receita e para isso criou o Fundo Federal Agropecuário (Ffap). Interessado nas questões referentes à reforma agrária, chegou a apresentar um projeto que visava integrar a distribuição de terras aos trabalhadores com a mecanização da lavoura, atrelando está integração à formação de cooperativas. O projeto, no entanto, não chegou a ser votado.

NA CÂMARA
Com a renúncia do gabinete de Tancredo Neves, em junho de 1962, Armando deixou a pasta e reassumiu o cargo na Câmara Federal. Em outubro do mesmo ano, disputou o governo de Pernambuco, lançando-se candidato pelo PSD, contra Miguel Arraes de Alencar, vencedor do pleito, e João Cleofas, nessa que seria a última eleição antes da deposição do presidente João Goulart e instalação do Golpe Militar de 1964.

Apesar do insucesso eleitoral ao governo do estado, Armando Filho apoiou na Câmara Federal a campanha de retorno ao modelo presidencialista, votando, inclusive, a favor da antecipação do plebiscito, aprovada em setembro, e, realizada em janeiro de 1963, que culminou na volta do presidencialismo.

Crítico do Regime Militar, Armando se filiou ao Movimento Democrático Brasileiro, partido que fazia oposição aos militares. Sob a legenda, concorreu, sem sucesso, ao Senado em novembro de 1966.

Com o fim do bipartidarismo, em novembro de 1979, filiou-se ao Partido Democrático Trabalhista (PDT), liderado pelo ex-governador gaúcho Leonel Brizola, a quem tinha profunda admiração. Armando Monteiro Filho somente voltou a disputar cargo público, disputando a vaga de senador, em outubro de 1994. Em 1998, após deixar o PDT, ingressou no Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB).

ELEIÇÃO
No ano de 1989, um episódio inusitado marcou a trajetória de Armando Monteiro Filho. Ele estava presente em um comício do então candidato à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, realizado na Praça do Carmo, no Centro do Recife. Apesar de nutrir uma grande admiração pelo líder petista, Armando não deixou a coerência política de lado – seu partido, o PDT, tinha o gaúcho Leonel Brizola como adversário de Lula. “Ele disse, no comício, que iria votar em Brizola. Foi vaiado por quem estava presente”, lembra o ex-prefeito do Recife, João Paulo (PT).

Ironicamente, foi a partir daquele episódio que a relação entre Armando Monteiro Filho e Lula se intensificou, conforme relata João Paulo. No segundo turno, Armando apoiou a candidatura do petista e, desde então, nunca mais deixou de votar no pernambucano. Dizia, inclusive, que havia votado em Lula sete vezes, sendo o primeiro turno da eleição de 1989 o único momento em que apoiou outro candidato.

“Armando era um grande admirador de Lula: de sua história, de onde veio, o compromisso que o petista tem com o povo”, destaca João Paulo, lembrando que a recíproca era verdadeira. “Lula sempre trava Armando com um destaque especial. Armando tinha uma educação muito refinada e respeitosa e, muitas vezes, ia para os eventos de Lula, mas como não tinha mandato, não ia para o palco. Assim que Lula o avistava, não importa onde ele estivesse, fazia questão de que Armando fosse para o palco. Era uma relação de amizade muito próxima”, relembra.

FUTEBOL
Além de homem de negócios, político e engenheiro, Armando tinha uma paixão pelo futebol, inclusive dando alguns passos como jogador. Aos 17 anos, jogou no juvenil do Sport - decretou luto oficial de três dias - e depois integrou a seleção da UFPE, tendo recebido convite para jogar em São Paulo. Mas o pai, Armando Monteiro, encerrou o projeto do filho, com a ameaça de enviá-lo a um convento para ser padre.

Depoimentos

“Grande empreendedor, uma figura pública marcante com enorme capacidade de diálogo. Uma de suas marcas era a cordialidade. Proativo, sempre pensava e atuava pelo bem do país”
Mendonça Filho (DEM), ministro da Educação

“Armando Monteiro Filho foi, certamente, uma das mais importantes figuras públicas da história de Pernambuco. Sempre comprometido com a democracia e o povo brasileiro”
Fernando Filho (sem partido), ministro de Minas e Energia

“Armando nos ensinou o amor pela lealdade e pelo fazer política da forma mais grandiosa. Mas seu nome está e estará presente para sempre na historia do Brasil e na história de Pernambuco”
Raul Jungmann (PPS), ministro da Defesa

"Foi um homem que mereceu todo nosso respeito e admiração. Um homem público absolutamente comprometido com as melhores causas, lutou uma vida inteira pela democracia e pelo Brasil”
Fernando Bezerra Coelho (MDB), senador

“Pernambuco perdeu um dos seus mais expressivos quadros na vida política e empresarial. (...) A morte de Armando nos deixa a tristeza da sua ausência. Mas fica impresso o exemplo da forma elevada como pautou sua atuação”
Humberto Costa (PT), senador

"Pernambuco e o Brasil perdem muito com o falecimento de Armando Monteiro Filho. Ele foi uma figura singular, com um círculo de amizade extremamente amplo, o que reforça a tese de que só acumulou amigos e admiradores ao longo de sua vida”
Jarbas Vasconcelos (MDB), deputado federal

“Foi exemplar como chefe de família, empresário e homem público. Seu desaparecimento deixa uma lacuna irreparável não apenas para Pernambuco, mas para todo o Brasil”
Raul Henry (MDB), vice-governador do estado e secretário de Desevolvimento Econômico

“Como político e industrial, Armando Monteiro Filho deixa um legado de ética, espírito agregador e consistentes compromissos com um Brasil socialmente justo. (…) Era sobretudo um idealista e visionário (...)”
Renato Cunha, presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar-PE)