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Futebol para profissionais Há 80 anos, o futebol pernambucano aderia à novidade de pagar salários para os jogadores

texto: Brenno Costa
brenno.costa@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 12/08/2017 03:00

O mundo ainda discute os valores. Como se pode um clube pagar 222 milhões de euros, cerca de R$ 820 milhões, por um jogador? As cifras exorbitantes da ida de Neymar do Barcelona para o Paris Saint-Germain marcaram o futebol como a transferência mais cara da história até o momento. Há 80 anos, uma discussão em Pernambuco entrava na raiz dessa questão. A semente do profissionalismo na modalidade chegava ao estado de navio.  Na Superedição do Diario deste domingo, o Superesportes convida para uma viagem no tempo, fruto de uma pesquisa de 268 páginas de jornais. Você conhecerá os bastidores e a trajetória da primeira contratação com salário oficialmente pago a um atleta de futebol no estado. Era a época em que muitos criticavam qualquer centavo dado a um jogador. O amor pelo jogo, pelo clube, deveria bastar. Até que o zagueiro Luiz Zago aportou no Recife para fechar com o Central e iniciar a era do profissionalismo em Pernambuco.

A década que iniciou a era profissional
Os primeiros dez anos da transição do futebol amador para o profissional representaram a quebra na hegemonia de Sport e América. Já em 1930, o extinto Torre foi campeão. Nesta edição, o campeonato foi interrompido antes do fim. Havia uma grande crise política no estado por causa do assassinato do governador da Paraíba, João Pessoa, na capital pernambucana, em julho. Como o Madeira Rubra já estava na liderança, foi aclamado vencedor. Crítico da mudança, o Santa Cruz foi o grande campeão da década ao levar quatro taças, com um tricampeonato. Já em 1936 e 1937, o Tramways, abastecido pelo dinheiro da The Pernambuco Tramways & Power Company, que administrava o serviço de bondes elétricos do Recife, conseguiu uma façanha que não se repetiu até hoje: um bicampeonato invicto.

Os campeões da década de 1930

Santa Cruz
1931, 1932 (invicto), 1933, 1935 e 1940

Náutico
1934 e 1939

Tramways
1936 e 1937 (invictoS)

Sport
1938

Reflexos na arbitragem
A profissionalização no futebol com o pagamento de salários a jogadores também trouxe outras mudanças na estrutura do esporte. A arbitragem foi um dos setores mais alterados. Antes, diretores de clubes e até mesmo jogadores eram responsáveis por conduzir os jogos - o que, obviamente, gerava algumas polêmicas. Com a nova era, a federação criou a figura do juiz e institucionalizou o pagamento pela atuação dele nas partidas. Ironicamente, a situação dos árbitros na atualidade ainda está à margem da profissionalização. A maioria deles possui outra atividade, tem a função de árbitro como secundária.

A Revolução de 1937 no futebol

A década de 1930 foi marcante para o país. Uma revolução tomou conta da política brasileira e culminou com um golpe de estado. Eleito para ser presidente, Júlio Prestes não assumiu o posto. Quem surgiu como novo líder do país foi Getulio Vargas, encabeçando a chefia do “Governo Provisório” e pondo fim à República Velha. Nos gramados brasileiros, não é exagero afirmar que também uma grande revolução se desenhava. Era o momento de se despedir do amadorismo e fincar raízes na era profissional. O momento em que os jogadores, oficialmente, passaram a receber salários para estar em campo.

Na verdade, o pagamento de salários a jogadores já acontecia de maneira camuflada em todo o país desde os anos 1910. Muitos ganhavam um falso emprego para receber os vencimentos, que, evidentemente, não eram em nome do time. Era uma jornada dupla que nem existia na prática. Depois, a disputa entre amadorismo e profissionalismo gerou uma década de torneios paralelos pelo país, como nos casos de São Paulo e Rio.

Na capital paulista, só em 1933 aconteceu, pela primeira vez, de um atleta profissional ser registrado. Em Pernambuco, havia uma resistência. Náutico e Santa Cruz eram reticentes. Do outro lado, Sport, América e o extinto Tramways, time da empresa britânica que explorava os serviços de bonde do Recife, seguiam o caminho indicado pelos times do Sudeste. Era inevitável.

Mas, na realidade, o marco para a mudança vestiu as cores do Central de Caruaru, em um ato registrado há exatas oito décadas, que mudou para sempre a história do esporte local. A inscrição de Luiz Zago marcou o início do profissionalismo no estado. Era também um sinal de força da primeira participação de um time do interior no campeonato estadual.

“O futebol pernambucano só teve a lucrar com o profissionalismo. Evoluiu bastante após a implantação do mesmo”, escreveu José Maria Ferreira, no livro História dos Campeonatos - Memória do Futebol Pernambucano, de 2007. “Alguns ‘tabus’ começaram a ser quebrados e o nosso prestígio ultrapassou fronteiras”, acrescentou.

Curiosamente, Pernambuco foi um dos poucos estados que passaram ilesos no processo de transição. O último campeonato oficial amador foi em 1936, com o Tramways campeão invicto. No ano seguinte, veio o primeiro estadual da era do profissional. Nele, o Esquadrão Elétrico repetiu a trajetória e até hoje carrega a façanha inédita de conquistar dois pernambucanos seguidos sem ser derrotado.

Ídolo no Sport, técnico e árbitro de destaque

O lugar da recepção e apresentação foi o Porto do Recife. Estavam presentes alguns jornalistas e os principais dirigentes do Central: o presidente do clube, José Victor de Albuquerque, e o diretor de futebol Walfrido Pereira. Esperavam a chegada do navio Itaquicé, que trazia o paulista Luiz Zago, a primeira pessoa contratada em Pernambuco para ser jogador de futebol. Só jogador. Fato noticiado na edição do dia 23 de junho de 1937, do Diario de Pernambuco, que testemunhou a chegada do atleta.

O paulista Luiz Zago chegou ao Central para disputar o Campeonato Pernambucano de 1937. Segundo o livro História dos Campeonatos, de José Maria Ferreira, recebeu dois contos de luvas para assinar contrato e salário mensal de 600 mil réis, tendo direito ainda a hospedagem - considerado um luxo para a época. Dentro de campo, construiu uma longa e, até certo ponto, destacada passagem em Pernambuco.

O atleta ficou na Patativa até janeiro de 1938, quando se transferiu para o Sport. A mudança de endereço se deu pelo fato do Central ter se sentido prejudicado durante a disputa do Estadual de 1937. Assim, retirou-se da federação, só voltando aos certames na década de 1960.

No Rubro-negro, Zago ganhou destaque, aumentou a importância do seu nome no futebol local. O atleta conquistou cinco títulos estaduais (1938, 1941, 1942 , 1943 e 1948), virou referência no time e integrou a seleção de Pernambuco por cinco anos (1939 a 1943).

A trajetória no Sport durou até janeiro de 1944, quando ele se transferiu para o Vasco da Gama. Ele até organizou um jantar de despedida junto à imprensa. Na ocasião, segundo o extinto Jornal Pequeno, “o Sport e o desporto pernambucano perderam um grande baluarte”. Já para o Diario de Pernambuco, ele havia se tornado o “melhor defensor do Norte”.

No fim, passou apenas oito meses no Rio de Janeiro. Em seguida, o zagueiro retornou ao Leão e ficou no clube como jogador até 1948. No ano seguinte, chegou a assumir o comando do próprio Sport como treinador e a seleção pernambucana. Já em 1951 completou sua incrível jornada no esporte local virando árbitro. A estreia foi logo em um clássico entre Sport e Santa Cruz.

Com o apito, Zago também ganhou destaque e chegou a ser apontado pela imprensa como principal representante do quadro local. Também foi bandeirinha em algumas partidas, inclusive.

Aos 85 anos, Zé Maria, volante que marcou história no Sport, guarda muito bem na memória o estilo de Zago como juiz. “Ele era muito exigente. Ele falava: ‘Quem manda aqui, sou eu. Você joga e eu mando’. Era muito correto”, lembra. Em 1954, Zago foi contratado pela Federação Baiana e encerrou sua história em Pernambuco.

A trajetória de Zago em Pernambuco

1937
Jogador do Central
Zago desembarca no Recife após viagem no navio Itaquicé e é recebido pela diretoria do Central. Em seguida, fecha primeiro contrato com salário oficialmente pago por um clube local.

1938
Jogador do Sport
Zago se transfere para o Sport, onde inicia uma grande trajetória no clube. No primeiro ano, conquista o Campeonato Pernambucano.

1948
Treinador do Sport
Zago jogou no Sport mais de dez anos. Nesse intervalo, passou oito meses no Vasco. Em 1948, vira treinador do Leão após ganhar cinco estaduais (1938, 1941, 1942 , 1943 e 1948).

1951
Árbitro de futebol
Zago decide se inscrever na federação para se tornar árbitro. A estreia foi logo em um clássico entre Sport e Santa Cruz. Foi elogiado.

1954
Despedida de Pernambuco
Zago aceita convite da federação baiana para ser árbitro e se despede do futebol pernambucano depois de 17 anos de história.