SUPERESPORTES

Diario esportivo

por Fred Figueiroa

Publicação: 14/11/2017 03:00

A mais dura lição 
do futebol
 
Dediquei parte do dia de ontem a montar uma espécie de cronologia dos erros de gestão - financeira e de futebol - cometidos nos três clubes do Recife desde o fim do ano passado. Levantei fatos, declarações, números, polêmicas… E, aos poucos, comecei a estruturar essas informações para escrever o texto de hoje. Também fiz esboços de análises sobre as trajetórias de América/MG e Ceará, que acabam servindo de lição e espelho para Santa Cruz e Náutico em 2018. E, em parte - apesar de habitar outra realidade financeira - até mesmo para o Sport - cujo rebaixamento deve se confirmar em dois ou três jogos. Mas antes de realmente sentar e escrever este artigo, parei para assistir Itália x Suécia. Jogo de volta da repescagem europeia nas Eliminatórias da Copa do Mundo. Pela frente a expectativa de assistir mais um roteiro dramático do futebol italiano. Quantos e quantos já não vimos em Copas, Eurocopas e mesmo em Eliminatórias. O sofrimento parece inerente à Azzurra, até mesmo (ou diria ainda mais) em suas maiores conquistas. 

O fim
Mas o tempo foi passando rápido demais no estádio San Siro em uma noite de ebulição de emoções e sentimentos. Das vaias em uníssono durante a execução do hino sueco  envergonhando o ídolo maior italiano, Buffon, que aplaudia solitariamente - ao silêncio ensurdecedor dos minutos finais. Foram quase duas horas. Pareciam 20 minutos. A Itália, que precisava vencer por 1 a 0 para levar a decisão à prorrogação, jogava por instinto. Desorganizada e sem capacidade de criar uma jogada minimamente coordenada, forçava bolas cruzadas na área. Uma, duas, dez, vinte…Poucas resultaram em chance efetiva de gol. Faltavam 2 minutos e as câmeras focavam em Buffon atravessando o campo para tentar o cabeceio em um escanteio. Não existe cena mais clássica de desespero no futebol do que o goleiro na área de adversária. Como quase sempre, um ato de bravura inútil. No último lance, outro escanteio, Buffon novamente na área, o cobrador segura a bola com as duas mãos e dá um beijo antes de levantá-la na área. Fim. 

Inesquecível
Enquanto os jovens jogadores suecos corriam incrédulos e sem destino pelo gramado do San Siro, os italianos não conseguiam conter as lágrimas. Não havia como. De cabeça erguida, Buffon tentava segurá-los de pé, dizendo alguma palavra de consolo. Seria a 7ª Copa do Mundo consecutiva do maior goleiro da história do futebol italiano. Um dos maiores de todos os tempos no planeta. Campeão em 2006. Protagonista. Seria. O futuro não veio dessa vez. Diante dos seus olhos, o presente devastador. O tempo implacável. A tragédia injusta no aspecto pessoal, mas absolutamente merecida coletivamente. Na primeira entrevista à beira do campo, Buffon não foi capaz de se mostrar forte e invencível. Sem precisar dar exemplo de força para os seus companheiros de time, ele deixou-se levar pela tristeza de ter encerrado sua história na seleção italiana daquela forma. E chorou. Chorou muito, simbolizando o pior dia de todos os tempos da Azzurra. Um dia que nunca será esquecido. Assim como o goleiro também não será. Foram 20 anos dedicados à seleção. 175 jogos. Seis Copas. Um título mundial. 

O abraço partido
Escrevi o nome de Buffon na busca do Twitter e me deparei com milhares de mensagens em incontáveis idiomas. Entre elas estavam vários depoimentos de jogadores de outras seleções. Adversários de grandes batalhas. Todos frustrados e tristes com a forma como Buffon encerrou sua história pela Itália. Eis o futebol em sua face mais cruel. E todos impotentes diante do fato. Não se reescreve a história. Não para um jogador prestes a completar 40 anos. 

A maior de todas as ausências
A personificação da tragédia a partir da trajetória de Buffon foi uma reação espontânea de quem vive o futebol. Pessoas emocionam pessoas. Nada mais humano. Porém, por maior que seja, o goleiro é pequeno diante da tradição que foi quebrada nesta segunda-feira no San Siro. Há 60 anos a Itália não ficava fora de uma Copa do Mundo. Mas este é apenas um número. Em 1958, era outra Itália, outro futebol e outro mundo. Nada do passado pode ser comparado ao fracasso italiano do presente. Gerações e gerações nunca viram um Mundial sem aquela camisa azul. É, sem dúvida, a maior de todas as ausências. Outras duas campeãs do mundo já ficaram fora de edições da Copa: A Inglaterra (campeã em 1966) não jogou em 1974, 1978 e 1994 e o Uruguai (vencedor em 1930 e 1950) ficou de fora de oito mundiais (1934, 1938, 1958, 1978, 1982, 1994, 1998 e 2006). São insignificantes perto da representatividade de uma tetracampeã. Ainda que esta atravesse seu pior momento. Nas duas últimas Copas foi mera coadjuvante, eliminada na primeira fase. Sinais de que o pior poderia estar por vir. E de que as mudanças no futebol são, de fato, profundas e sem volta. A Itália é um daqueles países que nos ensinaram que camisa ganha jogo. Aprendemos errado?