LOCAL

Diario urbano

por Tania Passos/interina
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Publicação: 12/08/2017 03:00

Carmo, o maior adro

O largo pátio que se descortina em frente à Basílica e Convento de Nossa Senhora do Carmo e à Igreja de Santa Teresa da Ordem Terceira do Carmo, no bairro de Santo Antônio, Centro do Recife, nem sempre foi como o conhecemos hoje. O adro era bem mais “introspectivo”, segundo as palavras da arquiteta e urbanista Amélia Reynaldo. A abertura da Avenida Dantas Barreto, na década de 1940, provocou a derrubada de 11 quadras do bairro. Uma delas passava por dentro da área que hoje integra o átrio. Os urbanistas costumam dizer que a beleza monumental do conjunto arquitetônico se escancarava à medida que se aproximava do local. Hoje, ela pode ser vista de longe, sem mais surpresas.
O Pátio do Carmo ficou mais amplo e passou a comportar grandes eventos, a exemplo da Festa do Carmo, padroeira do Recife, além de feiras de flores e mutirões de serviço de saúde. Fora isso, é um grande passeio, onde se abrigam pedintes e sem-tetos. A proximidade deles do templo religioso é uma forma de tocar os corações dos fiéis. O local também é ponto de comércio ambulante. Na frente da igreja é comum encontrar homens com placas para negociar a compra de ouro. A cena remete à passagem bíblica no livro de Mateus 12:13, quando Jesus expulsa os comerciantes da frente do templo. Claro que lá no pátio ninguém foi expulso. O comércio ambulante integra, aliás, a rotina do bairro em cada esquina. Não seria diferente no mais largo adro da cidade. Na própria igreja, inclusive, há um espaço para venda de artigos religiosos.

O conjunto carmelita
Em 1654, a Ordem do Carmo se estabeleceu no Recife. Em 1665,foi dado início às obras de construção da Basílica, sem a licença real. Requerida em 1674, só foi concedida 13 anos depois. Na mesma ocasião, o Palácio da Boa Vista, erguido por João Maurício de Nassau, foi doado à Ordem para ser integrado ao complexo da Basílica e do Convento. O templo foi concluído em 1767.

Os pombos do pátio
Não é a Praça de São Pedro, em Roma, mas o Pátio do Carmo parece ser um grande chamariz para os pombos. Migalhas de alimentos deixados na área do passeio, de forma intencional ou não, são atrativos para as aves. O vai e vem das pessoas não incomoda os pombinhos que só alçam voo quando se sentem ameaçados.

Palmeiras imperiais
Novamente as palmeiras integram a paisagem dos pátios religiosos. No jardim de entrada da Igreja de Santa Teresa, há três delas de cada lado, favorecendo uma entrada imperial ao templo católico. No adro do Carmo, há mais seis árvores do mesmo estilo, perfiladas no lado direito do largo. Devido à dimensão do espaço, as árvores quase passam despercebidas.

A beleza  do templo
Construída em 1710, a Igreja de Santa Teresa possui grande conjunto de pinturas dedicadas à vida da santa. Os painéis cobrem todo o forro e algumas paredes do templo. O autor das imagens foi João de Deus Sepúlveda, também responsável pela obra-prima da pintura barroca pernambucana presente no forro da Igreja de São Pedro dos Clérigos.

O passeio português
O adro da Igreja do Carmo foi coberto com pedras portuguesas. O espaço é um ponto de passagem de quem caminha ao longo da Avenida Dantas Barreto. A área também é usada para festas religiosas. Talvez isso explique como parte do passeio se encontra danificado. Em alguns pontos, nas imediações das palmeiras, as pedras deram lugar ao piso de terra batida.

Arquitetura moderna
A abertura da Avenida Dantas Barreto possibilitou a entrada no cenário histórico de edificações modernas. No adro do Carmo, há duas delas. O Edifício Igarassu, com 13 pavimentos, e o Edifício Leila, com quatro andares. Os prédios parecem deslocados da paisagem.

Barreiras físicas
Devido à dimensão do átrio, seria de se esperar que ele se tornasse um ponto convidativo para os motoristas estacionarem. A solução encontrada pós-Dantas Barreto foi instalar barreiras físicas em cimento concreto ao longo da extremidade do passeio. Hoje, eles também servem como assentos para os vendedores ambulantes.

A vez da padroeira
Em 1909, a virgem do Carmo foi proclamada padroeira do Recife. No dia 21 de setembro de 1919 ela foi coroada. Antes disso, em 1917, a igreja foi agregada à Basílica de São Pedro, no Vaticano, e em 1922, elevada à condição de Basílica. A fachada da igreja em rococó é um dos referenciais do século 18.