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Maratona pela vida em alto mar Para escapar da morte, seis tripulantes de barco que naufragou a caminho de Noronha nadaram 13km durante a noite para voltar ao continente

Thamires Oliveira
thamires.oliveira@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 14/09/2017 03:00

Foram 13 km de nado em alto mar, na escuridão da noite, com ajuda de coletes salva-vidas, boias e paletes de madeira - objetos feitos para empilhar cargas, que terminaram como elemento fundamental para a sobrevivência. Os seis tripulantes do Ekos Noronha, que zarpou às 16h30 de ontem, do Recife, para levar material de construção ao arquipélago situado a 545 km da capital, viveram cinco horas de tensão e superação depois que o barco naufragou por causa do mau tempo. Cumprindo o percurso pela primeira vez na embarcação, apesar do aviso de mar agitado e ventos fortes publicado pela Capitania dos Portos, a tripulação foi resgatada pelos Bombeiros à 1h40 de ontem, na Praia de Casa Caiada, em Olinda. Marujos experientes, estavam esgotados, mas vivos.

O Ekos partiu do Recife com 70 toneladas de material para a reforma de uma pousada em Fernando de Noronha. Duas horas e meia depois, os tripulantes começaram a sentir a força das ondas e muito vento. A partir daí, o barco foi a pique em cinco minutos, encerrando uma viagem que deveria durar dois dias.

O cozinheiro da tripulação, João Leite Lima, 63 anos, foi um dos sobreviventes. Segundo ele, os tripulantes tiveram pouco tempo para agir e conseguiram apenas avisar a Marinha pelo rádio sobre o acidente. “Sentimos o barco tombar um pouco na primeira onda forte. Na segunda, a popa (traseira) ficou coberta de água. Não havia o que fazer. Ou saíamos ou morríamos”, contou.

Quando decidiram abandonar o barco, não havia mais como pegar o bote, então eles cortaram partes dos paletes, pegaram coletes salva-vidas, boias e sinalizadores, e começaram a nadar para a costa, ainda visível no horizonte. “Usamos os paletes para nos apoiar e fomos nadando com as pernas. Deu cãibra, tivemos dor, mas a adrenalina não nos deixou parar. Sempre nos comunicávamos para ninguém entrar em pânico. Foi incrível”, relata o sobrevivente.

Apesar do longo percurso a nado, a parte mais complicada para eles foi a chegada à praia. As fortes ondas os jogavam contra as pedras, causando ferimentos e dores. Um dos tripulantes quebrou uma costela e foi levado ao Hospital Náutico do Recife. Seu estado de saúde é estável.

Para João, a experiência prévia salvou o grupo. “Todo mundo já tinha anos trabalhando no mar. Sabiam bem como agir”, afirmou o cozinheiro, que já passou por outros dois naufrágios. O alerta da Capitania vale até amanhã.

O roteiro de um drama

Terça-feira, 16h30
O barco sai do Recife para uma viagem de 300 milhas náuticas (545km) para Fernando de Noronha. Leva 70 toneladas de materiais, 30 toneladas a menos que seu limite de carga

Terça-feira, 19h
Os tripulantes começam a perceber ondas e ventos muito fortes. Em poucos minutos, a embarcação vai a pique

Quarta-feira, 0h
Hora aproximada em que os marujos conseguem chegar à praia de Casa Caiada, feridos e com dores por causa do impacto com pedras

1h40
O Corpo de Bombeiros resgata o grupo e leva um de seus integrantes, com uma costela quebrada, para o hospital

Os números de uma façanha
  • 13 km - A distância percorrida pelos náufragos equivale ao percurso de carro do Parque da Jaqueira à Pracinha de Boa Viagem
  • 10 km é o percurso da maratona aquática disputada na Olimpíada
  • 260 provas olímpicas de 50 metros, como a que deu medalha de ouro a César Cielo na Olimpíada de Pequim em 2008, poderiam ter sido percorridas pelos náufragos
  • 5 horas foi o tempo gasto pelos náufragos, aproximadamente.
  • Uma hora e 52 minutos foi o tempo do atleta medalha de ouro na maratona aquática de 10km na Rio 2016