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CURIOSAMENTE » Os novos voos da arara-azul Do risco de desaparecer às telas de cinema, espécie, símbolo da sustentabilidade, teve população triplicada em 30 anos e saiu da lista de ameaça de extinção

Ed Wanderley
edwanderley@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 13/01/2018 03:00

Cheiro de chuva, som de água corrente e pássaros comunicando-se à distância, um verde que samba junto aos olhos e dança com a luz de um sol sempre presente, que promove um calor úmido a cozinhar até pensamentos. O pantanal sul-mato-grossense é uma experiência sinestésica. Troca-se cada centena de pombos e ratos de cinzas ambientes urbanos por um volume similar de jacarés, que, aqui, povoam “ruas” demarcadas apenas por margens de vegetais e pavimentadas, durante boa parte do ano, por rios inteiros. Nesse cenário, distante do imaginário popular, por três décadas, biólogos promovem a proteção de uma das mais carismáticas espécies nacionais, que dá cara e cor à luta por sustentabilidade: a arara-azul.

Se foi por meio do impacto humano que a população da espécie Anodorhynchus hyacinthinus chegou a apenas 1,5 mil animais na década de 1980, foi por meio do trabalho de quem priorizava reverter sua extinção que esse número atualmente chega a 5 mil, o bastante para que a espécie esteja fora da lista de ameaçadas de extinção desde 2014. Mas quem lê os números friamente pode não compreender a dimensão do desafio. Monogâmica, a arara-azul se mantém com a mesma parceria até a morte do “cônjuge” – e, por aqui, não há puladas de ninho. Some essa ideia ao fato de que em, quase a totalidade dos casos, apenas um filhote por ninhada sobrevive e que muitas famílias foram (e são) destruídas pelo tráfico de animais exóticos e o nível de dificuldade pode se revelar mais claramente residindo em galhos bem mais elevados.

Hoje, 57 fazendas da região pantaneira abrigam 741 ninhos, o suficiente para abrigar nada menos que 3 mil araras-azuis. Desses, houve um “suplemento” importante de 284 ninhos artificiais. São caixas de madeira, com área para movimentação e desova, protegidas por placas metálicas nas próprias árvores, de forma a reduzir o alcance de predadores, facilitando a reprodução das aves. Tanto os naturais quanto os artificiais, após o período de voo dos filhotes, quando a família de araras deixa o local para movimentar-se pelo pantanal propriamente dito, passam a ser utilizados por outras aves, incluindo tucanos e outras araras.

Acompanhar toda essa realidade não sai barato. Os pacotes terrestres, que incluem observação e expedições junto à vida selvagem podem ser encontradas por diárias que variam de R$ 500 a R$ 3 mil - alguns deles, por meio de programas de proteção à vida selvagem que revertem parte desse investimento à conservação e pesquisa.

Poucas pessoas podem afirmar ter mudado o mundo. A bióloga Neiva Guedes faz parte desse seleto grupo. Foi após uma aula, ainda em 1989, quando ouviu do risco de extinção das araras que decidiu, de forma voluntária, explorar o Pantanal buscando conhecer os hábitos peculiares da espécie. Como consequência dessa iniciativa, nasceu o Instituto Arara Azul, formaram-se gerações de biólogos conservacionistas e reproduziram-se alguns milhares de aves ao longo de quase três décadas.

Maior nome no estudo da espécie em atividade no Brasil, foi dela a ideia da construção dos ninhos artificiais, monitorados por seus alunos. “A arara-azul tem uma diferença significativa: ela virou símbolo da proteção à natureza. Como é uma espécie ‘carismática’, é mais fácil trabalhar a consciência ao redor dela do que da onça, por exemplo, que, vez ou outra, abate o gado do fazendeiro. Ela inspira cuidados não apenas para ela, mas para o ecossistema”, explica Neiva.

No início do trabalho, era em um Bandeirante que Neiva desbravava as áreas alagadas e de mata no Pantanal. Passava relatórios de desempenho do veículo à Toyota, como forma de testar o carro em ambientes adversos. A parceria se mantém até hoje com a Fundação Toyota do Brasil, mesmo depois da retirada da arara-azul da lista de espécies ameaçadas de extinção, em 2014. “Apesar da conquista, que nos traz muito orgulho, entendemos que a inexistência de uma ação direta e planejada poderia significar o retorno da arara-azul para a lista”, defende Percival Maiante, presidente da fundação. A espécie, no entanto, permanece na lista vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), risco ainda significativo.

Maior centro de biodiversidade do país, o Pantanal acabou beneficiado com as intervenções pensadas para a arara-azul. Com o crescimento da população e os ninhos disponíveis, outras espécies, como tucanos, araras vermelhas e canindé também voltaram à região e se multiplicaram, mesmo em centros urbanos – o que deu a Campo Grande, por exemplo, o título de “Cidade das araras”, uma demarcação de território pertencente a espécies da natureza, como, ali, sempre o foi; E nunca deveria deixar de ser.

O repórter viajou a convite da Toyota

Uma espécie que conta com sua ajuda

Desde 2013, o Centro de Sustentabilidade do Instituto Arara Azul promove expedições de observação da espécie na natureza e abre espaço para doações e apadrinhamento de ninhos. Os recursos arrecadados com as ações são convertidos em financiamento de pesquisas e manutenção do trabalho de estímulo ao desenvolvimento das aves.

No caso dos ninhos “adotados”, é possível fazê-lo por meio de serviço (publicidade) ou subsídios, no caso de empresas e pessoas físicas. Os “serviços” em questão são da ordem de divulgação do trabalho em si e são comumente prestados por pessoas famosas de várias áreas, de Ziraldo e Carlos Saldanha a Luan Santana e Chitãozinho e Xororó. Eles emprestam suas imagens para projetar a campanha de conscientização do projeto. No caso das doações realizadas pelos demais interessados, o Instituto oferece uma progressão de recompensas que incluem desde pequenos chaveiros até pelúcias e grandes fotografias emolduradas.

Sobre a arara-azul
  • 100 dias é o tempo para a arara voar do ninho
  • 90% dos ninhos são feitos em árvores manduvi
  • 2 frutas servem de alimento para as araras: acuri e bocaiuva
Sobre o pantanal
  • 400.000 hectares é a área de Pantanal monitorada
  • 65% de seu território fica no MS e o restante, no MT
  • 2.137 espécies de aves, borboletas, mamíferos e peixes catalogadas