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Diario urbano

por Jailson da Paz
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Publicação: 13/01/2018 03:00

A segunda casa

Aos “80 anos e 18 dias”, completados ontem, José Lino da Silva bate o ponto no Mercado das Mangueiras. Por cinco ou seis horas em seis dias da semana. A permanência encurta aos domingos, quando o mercado, em Prazeres, Jaboatão dos Guararapes, tem o horário de funcionamento reduzido à metade. E o percurso é o mesmo. O aposentado percorre três quilômetros de sua primeira casa, o endereço de fato, para a segunda, como identifica o mercado. Percurso que faz de bicicleta. No bagageiro do veículo, um saco de ração para gatos e cachorros. Ou melhor, para um cachorro. “Se tem nome não sei. Olho para ele e ele me obedece”, explica. A rotina de alimentar os bichos se repete há um ano e inclui o mimo da carne moída. Carne comprada no mercado, geralmente após José Lino almoçar por “ali mesmo”. No intervalo das tarefas, coloca a conversa em dia, pesquisa preços e observa o mercado. Exercita a observação porque faz bem à memória, comparando o  presente e o passado com base em dois intervalos temporais. O de um ano é para analisar o estado dos animais, que“engordaram”. No maior, o de quase dez anos, compara o mercado do tempo da inauguração, em 2008, com o de hoje. O atual ganha em movimento, de vendedores e compradores, e perde em conservação, com sacolas plásticas, fraldas descartáveis e lixo eletrônico jogados no telhados dos boxes de serviço e anteparos externos das janelas, banheiros e trechos das calçadas quebrados. De pé e aparentemente saudáveis, as mangueiras e os jambeiros da área central, onde José Lino apoiava a bicicleta no gradil e alimentava os animais, que, de barriga cheia, iam dormir no chão.

Letra morta
Placas distribuídas no estacionamento do Mercado das Mangueiras alertam que as vagas são para “clientes em atendimento”. A mensagem é palavra morta. Motoristas, orientados por flanelinhas, estacionam nas vagas da Rua Dr. Luís Rigueira e seguem para bancos, lojas de material de construção e para a Estação Prazeres da Linha Sul do metrô.

Haja barulho
A confusão de sons impera na entrada do Mercado das Mangueiras, na Avenida Barreto de Menezes. Cobradores de vans gritam os destinos dos veículos, por um lado. Por outro, vendedores de CDs piratas e alto-falantes, amarrados a postes da rede elétrica, anunciando, da primeira hora da manhã à última da tarde, produtos e pontos comerciais.

Despejo irregular
Garis e margaridas correm para manter o Mercado das Mangueiras limpo. São nove. Recolhe-se cerca de quatro toneladas de resíduos por dia, principalmente de frutas e verduras. Despejos irregulares são comuns na Rua Dr. Luís Rigueira, lugar em que garis coletavam melancias jogadas na canaleta, na última sexta-feira.

Boxes vazios
Quando inaugurado, o primeiro andar do Mercado das Mangueiras seria um polo de confecções. Uma cooperativa produziria e venderia roupas. Maquinário foi instalado no mercado e costureiras treinadas, contudo o projeto ficou pelo caminho. A quantidade de boxes vazios no primeiro andar é uma das consequências disso.

Ação na Justiça
Outro resultado do fracasso do projeto de confecções, no primeiro andar do Mercado das Mangueiras, é a ação judicial impetrada por 179 permissionários contra um banco. Eles financiaram R$ 3,5 mil, mas, segundo o processo, em lugar de um box receberam uma barraca, de valor menor. Em caráter liminar, a Justiça suspendeu a dívida.

Telhas quebradas
Dos acessos ao primeiro andar do Mercado das Mangueiras, a área da rampa é a de mudanças e problemas aparentes. Telhas incolores quebradas permitem a entrada da água das chuvas. Para se proteger, feirantes improvisaram toldos, que servem de apoio para antenas de TV. Afinal, uma novela e um filme distraem.

Novas artesãs
Existem mais de 1,4 mil permissionários no Mercado das Mangueiras. Quase 800 trabalham no térreo, negociando de frutas, verduras e carnes a produtos eletrônicos e de beleza. Aos cerca de 600 permissionários do pavimento superior, juntaram-se, em novembro, uma dezena de artesãs.