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Precisamos falar do assédio Longa-metragem transforma relatos espontâneos de mulheres em denúncia contra o machismo, o abuso verbal e a violência sexual

ISABELLE BARROS
isabelle.barros@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 08/12/2016 03:00

Quem é mulher aprende, desde cedo, que a rua, ou até mesmo a própria casa, pode ser um ambiente hostil, onde o medo, a impotência, a raiva e a vergonha fazem morada rapidamente. O filme Precisamos falar do assédio, um dos que abrem a mostra Retrospectiva/Expectativa da Fundaj, se apoia em um dispositivo simples para trazer à tona o horror causado por machismo, abuso verbal e violência sexual à vida cotidiana das mulheres. A sessão é às 19h15, no Cinema do Museu (Rua 17 de Agosto, 2157, Casa Forte), com entradas a R$ 14 e R$ 7.

A preocupação com a sofisticação da forma, com a discussão de prismas variados sobre o tema ou o questionamento dos dispositivos cinematográficos é assumidamente deixada em segundo plano pelo filme, que tem um ponto de partida muito simples. Uma van-estúdio percorreu as ruas para colher depoimentos de mulheres a respeito de situações de assédio, desde cantadas na rua, passando por assédio sexual no trabalho, até estupros e abusos cometidos por pais e irmãos. Alguns dos desabafos são rápidos, sem cortes, como uma catarse.

Cada mulher que topasse dar o seu relato teria alguns minutos para falar e quem não quisesse se identificar teria a sua voz distorcida e poderia escolher uma entre quatro máscaras disponíveis. Não havia entrevistador para mediar as sensações que surgissem ao longo das falas e a edição final do filme foi realizada a partir de relatos de 140 mulheres. O próprio ambiente da van, escuro, apenas com uma luz, amplia a sensação de angústia dos relatos e desperta a sensação de que nada mais importa além de ouvir. As histórias são tão brutais, cada uma à sua maneira, que é na narração em primeira pessoa que o projeto busca força.

O filme assume uma forte dimensão ética, até mesmo de utilidade pública, ao mostrar, por quem se permitiu falar, o quanto dói o silenciamento que o sexo feminino sofre todos os dias. Não é incomum ver, nos depoimentos gravados, relatos de que as situações vividas nunca foram ditas a ninguém. Os depoimentos fazem pensar no quanto ainda é preciso percorrer para que as mulheres de todas as classes sociais tenham um mínimo de tranquilidade e dignidade ao interagir com os homens.