VIVER

Com as próprias mãos Na esteira da experiência dos pernambucanos Lula Côrtes e Lailson de Holanda, o pianista carioca Antonio Adolfo lançava, há 40 anos, Feito em casa, considerado o primeiro disco produzido de forma independente no país

Fellipe Torres
fellipe.torres@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 18/03/2017 03:00

Para se aventurar musicalmente em busca de um público, hoje, na era da informação, não é preciso muito além de uma câmera, um violão e acesso à internet. Claro, o tradicional modelo de indústria fonográfica permanece por aí. Nas últimas duas décadas, reinventou-se como nunca para se manter relevante no modo de gravação, edição, distribuição e consumo de conteúdo. Mas, se analisadas as dificuldades históricas enfrentadas por artistas em busca de um lugar ao sol, é seguro dizer: nada será como antes.

O protagonismo dos músicos nas várias etapas desse processo reverbera a atmosfera pós-moderna da década de 1970, quando ganhava força no Brasil e no mundo a cultura DIY (sigla para “do it yourself”, ou “faça você mesmo”). De braços dados com a liberdade intelectual, o movimento pregava maneiras alternativas de se criar, sem as amarras de grandes corporações. Imbuído desse espírito aventureiro, o pianista e arranjador carioca Antonio Adolfo produziu e lançou, há 40 anos, o vinil Feito em casa, considerado por muitos o primeiro álbum independente do Brasil.

À época, já era um profissional renomado, tendo no currículo a composição Sá Marina, famosa na voz de Wilson Simonal, várias trilhas sonoras de novelas da Globo, além de trabalhos com Mick Jagger, Elis Regina, Tim Maia, Maysa, Tony Tornado, Chico Buarque, Maria Bethânia, Milton Nascimento, Nara Leão, Edu Lobo. Ainda assim, ele não encontrou espaço junto às gravadoras para produzir o segundo disco solo. Resolveu fazer por conta própria.

Vidal Lima, Carmélia Alves e Adolfo: caminho independente. Antônio Adolfo (D) já era renomado quando lançou Feito em casa (Funarte/Divulgacao | internetallaboutjazz.com/Reproducao da Internet)
Vidal Lima, Carmélia Alves e Adolfo: caminho independente. Antônio Adolfo (D) já era renomado quando lançou Feito em casa

Antonio Adolfo vendeu o próprio carro, um órgão eletromecânico e alugou um pequeno estúdio no centro do Rio de Janeiro. O disco saiu pelo selo Artezanal, criado por ele mesmo, com capa de cartolina coberta de carimbos com o título emblemático: Feito em casa. Divulgou, distribuiu, vendeu. Quase todo instrumental, o álbum tem participação de músicos como Luiz Cláudio Ramos (violão e guitarra), Chico Batera (bateria), Jamil Joanes (baixo), Luizão Maia (baixo) e da cantora Joyce.

“Quis fazer o que estava sentindo. Não queria compromisso com paradas de sucesso, com gravadoras. É um disco bem plácido, bem calmo. Juntei os músicos. Na época, tinha uma (perua) Belina. Colocava o piano nela, os discos, os endereços para onde ia me apresentar... O Tim Maia me deu muitas dicas, porque já tinha feito aquele disco da fase racional”, comentou Antonio Adolfo no programa Passagem de som, do Sesc, em conversa com o músico Arrigo Barnabé.

A ousadia do instrumentista abriu caminho para artistas como o próprio Arrigo, junto com Danilo Caymmi, Francisco Mario, Itamar Assumpção. “O disco é um marco fundamental, já que foi a partir de seu lançamento que - pela primeira vez - desenvolveu-se uma discussão em torno do tema. Uma cena independente surge tanto como espaço de resistência cultural e política à nova organização da indústria, quanto como única via de acesso ao mercado para um variado grupo de artistas”, assinala o pesquisador Eduardo Vicente, doutor em comunicação pela ECA/USP, na obra A vez dos independentes(?): Um olhar sobre a produção musical independente do país.

Desde o lançamento de Feito em casa, Adolfo continua produzindo e distribuindo os próprios discos, hoje com ajuda da internet. O disco está disponível em plataformas de streaming como Spotify e Deezer.

O outro lado
O título de “primeiro disco independente” gera controvérsias. O álbum de Antonio Adolfo foi essencial para desencadear lançamentos. Contudo, ele surgiu depois de outras obras de grande impacto, como Tim Maia racional vol. I (1974), Tim Maia racional vol. II (1975), os LPs do projeto Disco de Bolso, criado em 1972 pelo compositor Sérgio Ricardo para distribuir álbuns encartados no jornal Pasquim com gravações de artistas a exemplo de Tom Jobim, Fagner e Caetano Veloso.

A experiência pernambucana
Quatro anos antes de Feito em casa, os pernambucanos Lula Côrtes (1949-2011) e Lailson de Holanda Cavalcanti gravaram Satwa, prensado na antiga fábrica Rozemblit. Gravado em janeiro e lançado em março de 1973, o álbum era todo instrumental, pois a dupla de músicos não queria submeter letras aos censores da ditadura militar. “Se a gente entrasse na Polícia Federal, não sairia mais nunca!”, diverte-se Lailson. A experiência impactou o destino de outras bandas em Pernambuco e alavancou, de certa forma, a carreira da banda Ave Sangria. Para Lailson, o disco não é reconhecido como o primeiro a ser lançado de forma independente porque a história oficial só registra os fatos ocorridos no eixo Rio-São Paulo: “É o grande erro da cultura brasileira”, lamenta.

“Não havia uma ideia de revolucionar... nada assim. Foi uma coisa mais lógica. Havia uma gravadora em decadência, a Rozemblit, e a gente podia prensar o disco lá, depois de alugar um estúdio e gravar”, Laílson de Holanda, músico e cartunista, sobre a concepção do disco independente Satwa