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Suor e arte Designer traça biografia do cinema de animação no Brasil e constata como as produções nacionais são, sobretudo, fruto do esforço dos cineastas

Alexandre de Paula
edviver@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 17/07/2017 03:00

Há 100 anos, o cartunista Álvaro Marins (1891-1949) “inaugurou” o cinema de animação brasileiro. Autor de Kaiser, ele foi o primeiro a produzir um filme no país utilizando as técnicas do gênero. Para contar essa e outras história, Ana Flávia Marcheti escreveu Trajetória do cinema de animação no Brasil. Viabilizado por financiamento coletivo, o livro surgiu do desejo da designer de conhecer melhor o mercado. “Queria um livro sobre referências visuais que falasse do processo criativo das produções de animação, assim como os artbooks dos grandes estúdios”, lembra.

Por meio de análises e entrevistas, o livro oferece uma linha do tempo que apresenta a trajetória da animação brasileira. A obra está dividida em cinco capítulos: Origem, Um impulso, Experimentando, Expandindo e Contemporâneos. O projeto gráfico privilegiou imagens das produções. Da pioneira Kaiser (1917) às contemporâneas Guida (2015), de Rosana Urbes, e O menino e o mundo (2013), de Alê Abreu, que disputou o Oscar de animação em 2016.

A pesquisadora chama a atenção para o fato de a animação brasileira não ter sido bem documentada, embora o cenário atual seja melhor. “As informações são difíceis de encontrar, estão muito dispersas”, argumenta. “Há mais livros, como o do Sávio Leite, Maldita animação brasileira. Temos o documentário Luz, anima, ação, de Eduardo Calvet, documento importante sobre a história da animação brasileira. Outras pesquisas estão por vir”, afirma.

A designer ressalta a importância de se estudar o tema. “No Brasil, a animação é vasta, não cabe apenas em um livro ou documentário”, diz. “Pesquisar é importante para nós nos estudarmos, buscar a nossa linguagem visual. É fundamental entendermos que existe mercado nacional. Animação não é só mão de obra barata, estamos exportando conteúdo nacional de excelente qualidade”, frisa.

Uma dos aspectos destacados foi a capacidade dos cineastas de criar sob condições desfavoráveis. “Mesmo sem recursos materiais e de mercado, os pioneiros foram lá e produziram. Eles se financiavam pelo desejo de fazer. A animação brasileira surgiu da vontade de pessoas que queriam que existisse um mercado nacional”, explica. “Hoje, sabemos fazer um filme de animação e estamos aprendendo a formatar um mercado (para o gênero)”.

De Annecy ao Oscar
Em 1917, foi exibido Kaiser, primeiro filme brasileiro de animação. Mas se perdeu no tempo o curta do cartunista Álvaro Marins (Seth), exibido no Rio de Janeiro. Hoje, o Brasil é reconhecido no mundo, com premiações no festival de animação mais importante, o Annecy, na França, da Associação Internacional de Filmes de Animação (Association d’International du Film d’Animation). Uma história de amor e fúria, de Luiz Bolognesi, venceu em 2013. O menino e o mundo (2013), de Alê Abreu, recebeu o prêmio de Melhor Filme do júri e público, em 2014. Dois anos depois, disputou o Oscar. O curta Guida (2015) é de Rosana Urbes, a única brasileira premiada no evento. Em 7 de setembro, a Lino, de Rafael Ribas, estreia no Brasil.