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Duas filhas do cangaço artístico Inspirado em livro pernambucano, Entre irmãs conta a trajetória de duas mulheres costureiras separadas por um bando do interior nordestino

BRENO PESSOA
breno.pessoa@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 11/10/2017 03:00

Fascinado pelo cangaço, o diretor Breno Silveira (Dois filhos de Francisco) tinha em seus planos fazer um filme que abordasse a figura mais icônica do movimento, Lampião. A ideia era falar do mítico personagem sob a ótica de outro nome igualmente marcante: Maria Bonita. Em meio às pesquisas sobre o tema, o cineasta entrou em contato com um livro de ficção ambientado no mesmo período histórico e situado na mesma paisagem: A costureira e o cangaceiro, da pernambucana Frances Peebles. A leitura trouxe mudança para o projeto, que se transformou em adaptação cinematográfica intitulada Entre irmãs, em cartaz a partir de amanhã nos cinemas.

O livro de Peebles, agora relançado com o mesmo nome do filme (Arqueiro, 576 páginas, R$ 54,90), tem a narrativa dividida pelos pontos de vista de duas irmãs, Luzia e Emília. A primeira é uma figura mais séria e pragmática, enquanto a segunda tem perfil mais romântico e idealista. Costureiras, as duas dividem morada com a tia em uma casa modesta no interior do estado, em Taquaritinga do Norte, nos anos 1930.

A chegada do bando do cangaceiro Carcará (Julio Machado) à cidade separa as duas: após obrigar as duas costureiras a preparar roupas para o grupo, o líder decide levar Luzia consigo, que aceita o destino em troca da segurança da tia e da irmã. O início violento da relação entre Luzia e o justiceiro social se evolui para um vínculo amoroso, enquanto Emília também segue outros rumos, indo morar na capital após casar com Degas (Rômulo Estrela), homem de família nobre do Recife.

Bastante descritivo e de cadência lenta, o livro de Peebles traz os elementos típicos de um romance histórico, que funcionam muito bem em tela como narrativa épica. “Eu vi que não existia uma história das mulheres no cangaço”, relembra a autora sobre a escolha do tema e das personagens femininas como centrais, inclusive colocando Luzia como figura forte e de liderança em um bando composto quase que exclusivamente por homens.

A ideia de colocar as duas irmãs em caminhos distintos, segundo a autora, reforça o seu ponto de vista de que, “para ter coragem, não é preciso pegar em uma arma. Emília tem muita força nas decisões para levar a vida que ela quer”. O roteiro de Patrícia Andrade, parceira habitual de Breno Silveira, mantém fidelidade ao espírito do material original, ainda que com mudanças significativas, sobretudo no desfecho da trama.

Enquanto a jornada de Luzia pelas paisagens do Sertão nordestino inevitavelmente gera reflexões sobre noções de justiça e um olhar realista sobre o cangaço, a caminhada de Emília aborda tópicos igualmente importantes. Estranhando o desinteresse sexual do marido, ela percebe que Degas mantém uma relação amorosa às escondidas com o amigo Felipe (Gabriel Stauffer). Se, para Emília, a descoberta da relação extraconjugal acaba por descortinar a existência de outras possibilidades de afeto, para a família de Degas, tradicional e conservadora, é motivo de vergonha e repreensão, ao ponto de sugerir internar o rapaz em um sanatório. Bastante atual em temos de discussão sobre cura gay.

Com quase três horas de duração, o filme tem bastante tempo para desenvolver os personagens e desenrolar os acontecimentos em uma cadência suave. Embora o tempo não chegue a tornar a projeção cansativa, algumas passagens poderiam ser suprimidas sem prejuízo. Considerando que o longa será transposto em minissérie para a  TV, a decisão de tornar a versão para os cinemas mais enxuta poderia ser positiva, mas a equilibrada alternância entre as vidas de Emília e Luzia mantêm o bom ritmo da narrativa.

2 perguntas // Breno Silveira, diretor

Seu cinema aborda sempre a temática familiar. O que lhe atrai?

Meu trabalho é muito em cima da mesma coisa. Eu não sei. A primeira coisa que gostei em filme era de sair transformado. Desde muito moleque. Nunca gostei de comédia ou de ficção científica, não gosto muito de policial. Mas sempre gosto muito do cinema quando saio transformado, mexido, tocado, emocionado. E acho que isso acaba surtindo muito nos meus filmes, eu gosto muito de tocar nesses valores, não interessa se é  sobre pai e filho, mãe e filho, irmã e irmão. Minha temática sempre vai girar em cima desses laços familiares. Se tem a ver alguma coisa comigo, eu não sei. Tenho que perguntar para os meus pais.

Outro elemento recorrente é a paisagem do interior. Qual a razão?
Falo das nossas raízes, falo de Brasil. Quando voltei (ao país, após estudar cinema na França), era uma época muito ruim para fazer filmes, porque as pessoas tinham uma noção muito feia do cinema nacional. A retomada ainda não tinha acontecido, a gente não tinha um cinema representativo. Eu queria fazer uma coisa que fosse nossa e que tivesse respaldo de público. Queria seguir nesse caminho, não uma coisa apelativa, mas que tivesse qualidade. A gente tem histórias maravilhosas em nossa cultura. E estamos em uma época, de novo, de um Brasil muito feio. Acho importante entender o que temos de bonito. Nosso ser urbano brasileiro ainda está perdido, aprendendo. Gosto mais de olhar para o que a gente tem de bom, que ainda não foi contaminado. Sinto que as nossas raízes ainda são bonitas. Dá vontade de olhar para dentro, de um olhar mais poético.