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Do infantil ao erótico Mais de uma centena de filmes compõem a programação do 8º Festival Internacional de Animação de Pernambuco, que começa na próxima semana na Região Metropolitana do Recife

breno pessoa
fellipe torres
edviver@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 14/11/2017 03:00

Pouco mais de dez dias separam o fim do 10º Janela Internacional de Cinema do Recife, encerrado anteontem, e o início do Animage - Festival Internacional de Animação de Pernambuco, com abertura marcada para o dia 24. O breve espaço de tempo entre os eventos ajuda a reforçar o caráter quase complementar que o segundo oferece, abarcando um importante segmento da sétima arte. As exibições serão realizadas até o dia 3 de dezembro nos cinemas São Luiz e Fundação/Museu, além de espaços como Caixa Cultural Recife, Jump, Apolo 235 e Teatro Bianor Mendonça Monteiro, em Camaragibe. No São Luiz e no Museu, ingressos custarão R$ 5. Nos demais lugares, o acesso será gratuito.
A oitava edição do Animage terá 112 produções exibidas, sendo 98 curtas, oito longas e seis episódios de Angeli, the killer, série documental em stop motion sobre o quadrinista brasileiro. Um dos aspectos mais valiosos do festival é o acesso a obras inéditas e de difícil acesso: nenhum dos longas foi exibido anteriormente no Recife, a exemplo de Torrey pines, escalado para a sessão de abertura, dia 28, às 19h, no Cinema São Luiz. Autobiográfica, a animação do cineasta trans Clyde Petersen reconta uma viagem pelos EUA feita durante a infância, quando ainda era uma menina, ao lado da mãe, que sofre de esquizofrenia.
“Um longa dirigido por um homem trans é algo ainda difícil de a gente ver aqui, no circuito de cinema, ainda mais no circuito de animação. O filme não necessariamente aborda esse assunto (transexualidade), mas a simples presença do diretor na programação é um sinal de que o Animage está conectado com essa pauta, é uma demonstração de apoio à causa e também uma maneira de receber isso com naturalidade”, comenta o curador do Animage, o jornalista e cineasta Júlio Cavani.
Outro dos carros-chefes é I'll just live in Bando, do sul-coreano Lee Yongsun. A produção acompanha as angústias de um ator desempregado que recusa um papel para assumir uma vaga de professor, trabalho que poderá render maior estabilidade financeira. A exibição será no dia 1º de dezembro, às 19h, no São Luiz. Na sequência, às 20h30, tem início a Mostra Erótica, responsável por algumas das sessões mais disputadas do festival. A seleção deste ano reúne 11 produções nacionais e internacionais, incluindo Filó, a fadinha lésbica, de Sávio Leite, exibida no Festival de Berlim. Também merecem destaque na programação regular o iraniano Teerã tabu, de Ali Soozandeh, e o chinês Tenha um bom dia, de Liu Jian, ambos proibidos de serem exibidos nos países de origem por conta do teor político.
Para Cavani, Teerã tabu dificilmente seria contada livremente em uma sociedade conservadora como é a do Irã. “O filme trata de temas que são delicados naquele país, como a prostituição. Não poderia ter sido filmado em Teerã da forma como ele retrata a cidade. Então, graças à linguagem da animação, o diretor pode contar aquela história. O cinema de animação está servindo de ferramenta de expressão de forma desbravadora”, comenta.
O festival terá três oficinas gratuitas: Bonecos artesanais para stop motion, Rotoscopia para crianças e Animação com recortes. Haverá, ainda, masterclass com a animadora Rosana Urbes sobre processo de criação. Veja a programação completa em bit.ly/2qTW5ua.

 

[ Entrevista Júlio Cavani //  curador

 

inquietações
O contexto político do Brasil e do mundo, hoje, acabou fazendo com que a programação desta edição do Animage tivesse um significado especial. Não necessariamente pelo conteúdo dos filmes, mas pela época em que eles estão sendo lançados e como o mundo reage hoje a algumas questões que os filmes estão trazendo. Alguns filmes da programação ilustram bem essas questões, essas inquietações.

ARTES PLÁSTICAS
O curta Peep show, da Mostra Erótica tem uma peculiaridade que pode chamar a atenção pelo momento atual. Ele tem ligação especial com exposição que está em cartaz no Masp e foi censurada para menores de 18 anos. É formado por mais de 100 pinturas da história da arte que foram animadas pelo diretor italiano Rino Stefano Tagliafierro. Ele faz um panorama da nudez e da sexualidade na história da pintura. Além de potencializar o impacto daquelas pinturas por meio de recursos de som e movimento, o filme acaba mostrando como a nudez e o sexo são temas que estão presentes nas artes plásticas há séculos.

censura
Outro filme da programação que acabou tocando nessa questão é Tenha um bom dia, longa de animação chinês que concorreu ao Urso de Ouro no Festival de Berlim, depois foi selecionado para o Festival de Annecy, o maior festival de animação do mundo e, poucos dias antes da exibição no evento, foi retirado da programação por pressão política do governo chinês. É mais um  exemplo de filme, assim com Teerã tabu, que enfrenta ou enfrentaria problemas de perseguição no seu próprio país, mas que foi realizado, foi completado. A linguagem da animação permitiu que o diretor construísse essas imagens e, quando o filme ganhou o mundo, o governo da China ficou incomodado. A cada exibição do filme é como se fosse uma nova afirmação de que aquelas imagens precisam ser mostradas e aquele artista tem direito de se expressar onde quiser.