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Com ele é tiro, porrada e bomba Em Justiceiro, nova série fruto de parceria entre Marvel e Netflix, anti-herói usa métodos violentos para combater o crime e deixa rastro de sangue

Breno Pessoa
breno.pessoa@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 14/11/2017 03:00

Poucos nomes das HQs sintetizam tão bem a essência de um personagem quando Justiceiro, agora protagonista de série homônima do universo televisivo da Marvel na Netflix. Criado em 1974, o anti-herói é exatamente o que o título sugere, alguém que faz justiça pelas próprias mãos, não necessariamente seguindo as regras, leis ou, simplesmente, o senso comum. Com métodos tão violentos quanto os daqueles que são seus alvos, o vigilante combate o crime deixando um longo rastro de sangue. A estreia na Netflix será sexta-feira.
Como outras produções Marvel/Netflix, o programa tem 13 episódios e, novamente, esse formato pesa um pouco na narrativa; há a impressão de que a história poderia ser contada, sem prejuízos, em menor tempo. A variedade de subtramas e personagens coadjuvantes, aliada ao bom ritmo da série, no entanto, sustenta bem o programa.
Já tarimbado em papéis assim, Jon Bernthal (o Shane, de The walking dead) interpreta o protagonista, Frank Castle, ex-fuzileiro naval que serviu no Afeganistão durante a chamada Guerra ao Terror, campanha bélica intervencionista iniciada após os ataques do 11 de Setembro. Não bastassem as experiências traumáticas inerentes à função, Castle descobre uma conspiração orquestrada pelos superiores, informação que coloca sua cabeça a prêmio e resulta também no assassinato de sua família.
Parte dessa história já havia sido desenvolvida na segunda temporada de Demolidor (2016), quando o personagem foi apresentado na TV. A série solo dá estofo para a trama e coloca em primeiro plano outras questões além da discussão sobre moralidade e justiça na atividade de um vigilante que executa criminosos. Há, em Justiceiro, outros tópicos bastante atuais, como o armamento de cidadãos e a readaptação social de militares após o serviço em guerras.
País com maior taxa de homicídios por armas de fogo, os EUA ciclicamente são palco de debates sobre a questão do porte após tragédias como o recente ataque em Las Vegas que, no início de outubro, deixou 59 mortos e mais de 500 feridos. Armamentista, Frank Castle tem entre seus alvos justamente indivíduos que se beneficiam do fácil acesso a armamentos, o que só reforça a dúvida sobre o que é a raiz ou a solução para o problema. A polêmica também é explorada a partir da jornalista Karen Page (Deborah Ann Woll). Além de ser uma das poucas vozes a favor do Justiceiro na mídia, ela própria carrega uma arma na bolsa e a utiliza quando necessário.
Outra subtrama atualíssima envolve o ex-soltado Lewis Walcott (Daniel Webber), que de volta ao país, se mostra totalmente deslocado e não enxerga propósito na vida fora do cenário de guerra. Em certos aspectos, a abordagem lembra o drama de Rambo (1982), em que Sylvester Stallone, como veterano do Vietnã, é visto como pária pela sociedade. Atualizados os conflitos, os problemas são similares, do estresse pós-traumático à visão negativa de algumas parcelas da sociedade sobre a presença militar dos EUA no Afeganistão.

 

[ Ousadia e ação

A exemplo de Jessica Jones e Luke Cage, séries que, respectivamente, abordaram relações abusivas e racismo
em suas tramas, Justiceiro traz temas espinhosos e relevantes como pano de fundo sem deixar de ser um bom entretenimento. Um dos destaques da segunda temporada de Demolidor, o Justiceiro, em sua série solo, brilha novamente nas sequências de ação. A série não ameniza
nas cenas de confronto físico e mostra uma
visceralidade próxima à vista nos arcos mais violentos do personagem nos quadrinhos. Bem coreografadas e
criativas, as lutas convencem e são dosadas de forma equilibrada ao longo dos 13 capítulos, ajudando a manter o ritmo do programa, bastante pautado por diálogos e situações menos frenéticas.