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'Artista não é celebridade' Em seu segundo romance, a atriz e escritora Fernanda Torres aborda a perda da relevância da arte diante das mudanças da sociedade brasileira

Márcia Maria Cruz
edviver@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 11/01/2018 03:00

Na juventude, Fernanda Torres se encantou por Gustave Flaubert (1821-1880). “Fui marcada pela acidez dele, pelo pessimismo, pelo interesse no erro e no equívoco da humanidade”, diz. Dona de sarcasmo e ironia, a atriz e escritora lança seu segundo romance, A glória e seu cortejo de horrores, depois de estrear no gênero com Fim. Em A glória..., ela conta a história de ator que passa pela TV, cinema e teatro no Rio de Janeiro, na década de 1960. Com escrita inconfundível, Fernanda remonta não só ao panorama das artes e das coxias, que conhece desde a infância, pois é filha dos atores Fernanda Montenegro e Fernando Torres, como também traça um retrato da cultura brasileira.

Serviço

A glória e seu cortejo de horrores, de Fernanda Torres
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 216
Preço: R$ 44,90 e R$ 29,90 (e-book)
 
Entrevista - Fernanda Torres // atriz e escritora
 
A glória e seu cortejo de horrores é o seu segundo romance e terceiro livro. Como você caracteriza este momento de sua escrita?

Venci barreira complicada, que é a de dar conta de um segundo romance depois de um primeiro bem recebido. Demorei muito até ordenar as ideias, escrevi pulado, um capítulo aqui, outro ali, antes mesmo de o personagem se definir ator. Foi um processo muito diferente do Fim, que me veio de enfiada, que se escreveu quase por si só. Olho o Glória..., o Fim, e penso no que falta aos dois, no que gostaria de lidar para frente, no que me serviria de companhia, porque os livros se fazem no tempo, e você só conta com uma certa intuição. O Cristovão Tezza diz que os livros são intrusos, eles se metem em você, insistem em surgir, e é preciso humildade, calma e paciência para que eles saiam, se formem, sem afobação.

Você apresenta no novo livro a história de um jovem aspirante a ator no Rio de Janeiro. Em que medida sua proximidade com o palco e a televisão, desde a infância, ajudou na ambientação do romance?
Por ser filha dos meus pais e ter convivido com gerações anteriores à minha, tenho uma memória estendida do teatro, que vai de Dulcina, de Procópio, até Paulo Gustavo. É claro que, no Glória..., estava falando de algo próximo a mim, de fatos que testemunhei, mas também de uma memória que herdei, por via oral, de atores com quem convivi, em especial do Sérgio Britto. Ele pontua o livro todo, o Sérgio fez o Lear do primeiro capítulo, fez teatro com Vitor Garcia, fez Tango, com Renata Sorrah, ele está muito presente no livro. Mas hoje, quando penso no quanto o Glória... está ligado, ou não, à minha experiência, concluo que o Fim é tão autobiográfico quanto esse.

Desde cedo, você lida com o reconhecimento, tanto seu como de seus pais. Quando escolhe a frase de sua mãe para o subtítulo - A glória e seu cortejo de horrores -, é uma crítica ao universo da fama?
Ignoro o processo da fama e do sucesso quando escrevo, atuo. Não penso nisso, penso no ofício mesmo, no fazer. Celebridade é a palavra que mais desprezo em todo o universo das palavras. Tenho horror dessa palavra, do vazio que ela representa. Um artista não é uma celebridade, ele é um artista, não é a fama que o move, mas algo muito mais profundo. O que move um artista é a necessidade de se expressar, de traduzir o mundo, de se comunicar, de chegar ao outro. A frase não diz respeito à fama, mas à pressão que se segue a uma grande realização. Existe uma ansiedade imensa na vida pública, na exposição, na expressão, que nada tem a ver com ficar famoso, ter sucesso, é de outra natureza.