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Futuro da tela grande Cinema pernambucano terá ano prolífico, entre produções e lançamentos de diversos gêneros, tanto em festivais quanto nas salas de cinema

texto: BRENO PESSOA
breno.pessoa@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 13/01/2018 03:00

Após um período relativamente morno de lançamentos, 2018 promete ser de movimentação intensa para o cinema pernambucano. Com mais de 15 estreias previstas e dezenas de títulos em produção, o ano deve ser prolífico em número e diversidade de gêneros. De comédia a dramas sociais e documentários, a cena local sinaliza um bom momento, não só para este como para os próximos anos. Confira, a seguir, o apanhado de alguns títulos que devem ocupar a tela grande em breve. Um elemento em comum entre praticamente todas as produções relacionadas é a incerteza sobre datas de lançamento, problema recorrente em obras que geralmente ficam de fora do circuito comercial.

O primeiro longa-metragem de Tiago Melo inaugura a leva pernambucana deste ano. Azougue Nazaré tem estreia em espaço bastante prestigiado: o Festival de Roterdã, na Holanda, no próximo dia 25 de janeiro. Como a produção foi rodada em Nazaré da Mata, no interior do estado, o diretor já prometeu que o município da Zona da Mata será o segundo lugar a receber a projeção do filme, após a première mundial.  

A ficção acompanha personagens ligados, direta ou indiretamente, ao maracatu rural, em meio à expectativa dos meses que antecedem o carnaval, e as tensões existentes entre eles, incluindo aí questões amorosas e religiosas. A produção conta com atores profissionais, a exemplo de Dandara de Moraes (Açúcar) e Nanego Lira (Central do Brasil), e também amadores, como integrantes do grupo de maracatu Cambinda Brasileira, agremiação que completa cem anos de existência em 2018.

Fora as estreias, a movimentação na cena local se dará com gravação de novos filmes e a finalização de algumas obras em fase de pós-produção. Entre nomes que vão para os sets nos próximos meses estão Kleber Mendonça Filho e Lírio Ferreira). O próximo trabalho do diretor de Aquarius será uma parceria com Juliano Dornelles, responsável pela direção de arte no longa-metragem estrelado por Sonia Braga. O novo título promete ser um dos mais diferentes da filmografia do cineasta, que anunciou o projeto como uma espécie de western no interior do Brasil e traz elementos de ficção científica.

Cult do cinema pernambucano, Árido movie (2005), de Lírio Ferreira, vai ganhar continuação em breve, intitulada Aqua movie. A sequência deve ser rodada em municípios atravessados pelo projeto de transposição do Rio São Francisco, incluindo Salgueiro, Petrolina, Cabrobó e outras localidades. Enquanto o filme original tinha no elenco principal Selton Mello, Guilherme Winter, Mariana Lima e Gustavo Falcão, o novo deve ser centrado em uma personagem vivida por Alessandra Negrini.

Nelson por um conterrâneo

Para o cineasta Jura Capela (Jardim Atlântico), a promessa é de um ano intenso, com dois lançamentos bem distintos: uma ficção e um documentário. O primeiro é adaptação cinematográfica da peça A serpente, de Nelson Rodrigues, cuja primeira sessão foi no Festival do Rio, em outubro passado. “É uma homenagem ao teatro de Nelson, seguindo os capítulos e as frases do próprio autor”, diz o diretor, sobre a fidelidade na produção, estrelada por Matheus Nachtergaele e Lucélia Santos. A atriz, aliás, era favorita do escritor e estrelou três versões para o cinema de obras dele: Álbum de família, Bonitinha, mas ordinária e Engraçadinha, todos lançados em 1981.

A serpente é o primeira adaptação rodrigueana dirigida por um conterrâneo do escritor, que já foi levado para a tela grande por cineastas como Arnaldo Jabor (Toda nudez será castigada), Bruno Barreto (Beijo no asfalto), J.P. Carvalho (Bonitinha, mas ordinária) e Neville d’Almeida (Os sete gatinhos). O longa-metragem pernambucano recebeu o prêmio do júri no Festival Santa Maria da Feira, em Portugal, e circulou ainda pelo Festival de Brasília. A estreia nacional está prevista para o segundo semestre.

Um acervo de aproximadamente 200 horas de gravações de shows e ensaios dos pioneiros do manguebeat foram o ponto de partida para o documentário que Capela espera lançar antes do fim do ano. “Logo no início do movimento, estava lá vendo tudo acontecer e foi quando troquei minha prancha de surfe por uma câmera de filmar”, conta o diretor. “Eu me vi com um poderoso arquivo e, depois de vinte anos, senti a necessidade de fazer um documentário sobre tudo aquilo que mudou a minha vida e que me incentivou a ser cineasta”.

O material de arquivo inclui performances de Chico Science e Nação Zumbi, Eddie, Querosene Jacaré, Mestre Ambrósio, entre outros. Além de resgatar o acervo, a produção inclui mais de 50 entrevistas realizadas com músicos, jornalistas, VJs da MTV, representantes de gravadoras e outros profissionais envolvidos. “Já montamos todo o material e ainda temos algumas pessoas que pretendemos entrevistar cujas agendas só nos permitiram filmar em fevereiro”, adianta Capela.

para 2018

Piedade
de Cláudio Assis
Engajamento é palavra de ordem no novo filme de Assis. “Tem que dizer algo, não é só entretenimento”, afirma o diretor sobre a produção, que aborda ecologia, política e outros tópicos. Gravado na Reserva do Paiva e nas ilhas de Tapuoca e Cocaia, no Litoral Sul, aborda o impacto de uma petrolífera nos arredores de uma praia, com Fernanda Montenegro, Irandhir Santos, Cauã Raymond, Gabriel Leone e Matheus Nachtergaele.

Em nome da América
de Fernando Weller
Carioca radicado em Pernambuco, Weller investigou a presença de norte-americanos no Nordeste, entre os anos 1960 e 1970, a partir do projeto Peace Corps,  divulgado como esforço internacional de trabalho comunitário, mas com indícios de propósitos escusos. “Era parte de uma política para desestabilizar movimentos do campo, como as Ligas Camponesas”, afirma. Foi exibido no Festival do Rio.

Organismo
de Jeorge Pereira
A vivência como cadeirante torna o tema de Organismo familiar para Jeorge Pereira, baiano radicado em Pernambuco. A trama acompanha Diego (Rômulo Braga), tetraplégico que, após a morte da mãe, passa a rememorar passagens da vida e refletir sobre os tempos atuais, ao lado da namorada Helena (Bianca Joy Porte). A ideia surgiu quando ele trabalhava na ONG Rodas da Liberdade, em Porto de Galinhas.

para 2019

A morte habita a noite
de Eduardo Morotó
Com o primeiro curta-metragem lançado em 2010, o caruaruense Eduardo Morotó carrega na bagagem outros três títulos e cerca de 30 prêmios em festivais nacionais e internacionais. É essa experiência que ele traz para A morte habita a noite, primeiro longa, gravado no Recife entre setembro e outubro de 2017, tendo como locações uma pensão no centro da cidade, Praça do Sebo e o Mercado de São José. Deve ser finalizado ainda em este ano.

Livremente inspirado em contos do escritor Charles Bukowski (1920-1994), o filme dá continuidade ao universo baseado na obra do autor que Morotó inaugurou no curta Quando morremos à noite (2011). Não é uma sequência, explica o cineasta, mas “uma expansão da história”. O roteiro, também dele, é centrado nas relações afetivas de Raul (Roney Villela). “É um personagem que ficou muito na minha cabeça, senti que era fácil escrever mais, desenvolver”, comenta. “É o alter ego pernambucano do Bukowski”, resume Villela sobre o papel, um escritor de meia idade frustrado. “Quantos brasileiros não vivem dessa forma, trabalhando em subempregos, tristes onde estão?”, indaga o ator, ressaltando o grande potencial de identificação do público.

Lucicreide vai para Marte
de Rodrigo César
Anunciado como o maior orçamento já disponibilizado pela Ancine para uma produção de fora do eixo Rio-São Paulo (R$ 5.698.792), é uma incursão em um gênero pouco explorado no estado: a comédia. Longa-metragem de estreia de Rodrigo César, que por dez anos esteve à frente do humorístico televisivo O papeiro da Cinderela, a comédia é uma espécie de debute também para a atriz. Embora já tenha participado de outros filmes, inclusive como protagonista, a exemplo do ainda inédito Uma pitada de sorte, é a estreia de Karla em uma produção cinematográfica pernambucana. “Eu nunca fui convidada a fazer cinema em Pernambuco. Então, eu vim fazer o meu cinema em Pernambuco”, que também produz o título.  

“A Lucicreide é muito maior do que eu”, afirma a atriz sobre a personagem, que a fez despontar, nos anos 2000, para o grande público. O papel, no entanto, surgiu muito antes, quando a artista ainda ensaiava as primeiras incursões no teatro, na adolescência. “Eu tinha 15 anos, agora, tenho 42 e ela está no cinema”, comemora. As gravações foram realizadas no fim de 2017 no Recife e em Olinda e, a partir de 20 de janeiro, será rodado também no Centro Espacial da Nasa, em Orlando, nos EUA.

Mulheres no comando
Ainda que a relação de lançamentos previstos para 2018 seja predominada por diretores, importantes títulos que chegarão às telas levam a assinatura de realizadoras mulheres

Açúcar
de Renata Pinheiro e Sergio Oliveira
O novo trabalho do casal pernambucano responsável por Amor, plástico e barulho (2013) explora questões delicadas: racismo e embate de classes. Suspense psicológico com toques fantásticos, é estrelado por Maeve Jinkins como Maria Bethânia Wanderley, herdeira de um engenho de cana decadente na Zona da Mata do estado. Ao se mudar para o local, a racista Bethânia vê como afronta o fato de trabalhadores negros que, no passado serviram aos seus familiares, estejam prosperando de maneira independente ao engenho, um empreendimento em ruínas e cheio de dívidas. “O Brasil precisa pensar sobre os resquícios da escravidão, algo que de certa forma modelou a nossa sociedade”, diz a diretora. Incisivo, o filme fala sobre permanência do racismo através de um comentário a respeito da aristocracia rural do país. Simbolicamente poderoso, traz um tema urgente e necessário, porque, embora a casa grande esteja desmoronando, o preconceito segue forte no Brasil.

Amores de chumbo
de Tuca Siqueira
Uma paixão interrompida à época da ditadura militar é reacesa quando Maria Eugênia (Juliana Carneiro da Cunha) e Miguel (Aderbal Freire Filho) voltam a se encontrar no Recife. A premissa pode dar a entender que se trata de uma história de amor, mas obra de Tuca Siqueira tem nuances políticas. O período de repressão no Brasil é um importante elemento na trama. Os traumas e as vivências da ditadura são parte indissociável da vida dos protagonistas, todos com passado de resistência e militância. Único título pernambucano selecionado para a Mostra Novos Rumos de Longas no Festival do Rio em 2017, a produção teve boa acolhida pelo público e foi exibido também na Mostra SP e no Sacoleja: I Mostra Livre de Cinema Pernambucano. Mesmo passando por tópicos sensíveis, o drama é predominantemente marcado pela leveza. Destaca-se também por abordar afeto e sexo entre pessoas na terceira idade, assuntos e segmentos pouco explorados no cinema. Em suma, um filme cativante sobre a atemporalidade do amor.

Modo de produção
de Dea Ferraz
Recentes desdobramentos políticos do Brasil, a exemplo das mudanças nas regras trabalhistas em vigor desde novembro, trouxeram uma inesperada nova leitura para Modo de produção. Dirigido pela recifense Dea Ferraz (Câmara de espelhos), o documentário acompanha o dia a dia do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ipojuca. Enquanto as novidades na legislação acenam para maior desequilíbrio de forças na relação entre empregados e patrões, a produção, gravada em 2015, aponta disparidades preexistentes. Com o mínimo de interferência, a cineasta não recorre a entrevistas e registra, essencialmente, os atendimentos e as consultas de canavieiros a advogados do sindicato, para relatar queixas variadas, de condições insalubres de trabalho ao descumprimento de pagamentos. “Nossa realidade atual mudou e o material ganhou novo sentido. A gente começa a entender que o que era ruim vai ficar pior. E isso traz o filme para se conectar com o hoje”, diz a realizadora.

Outras estreias previstas
A palavra, de Guilherme de Ameida Prado
Camocim, de Quentin Delaroche
Maria Preste, de Ludmila Curi
O silêncio da noite é que tem sido testemunha das minhas armaguras, de Petrônio Lorena
Saudade, de Paulo Caldas
Super Orquestra Arcoverdense de Ritmos Pernambucanos, de Sérgio Oliveira