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Paixão forasteira A cultura carnavalesca de Pernambuco exerce um fascínio permanente sobre estrangeiros e leva para o mundo a nossa forma de lidar com a manifestação ancestral

texto: ISABELLE BARROS | isabelle.barros@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 10/02/2018 03:00

A visão de uma troça de frevo, maracatu ou cavalo-marinho, tão gravada na retina dos pernambucanos, pode ganhar ares de epifania quando essas manifestações culturais são observadas por um olhar de outro país. A identificação com a música, o canto e a dança locais faz com que alguns desses estrangeiros as adotem durante o ano inteiro, estabelecendo uma ponte cultural entre Pernambuco e seus países de origem ou adoção. Para eles, o carnaval é um momento privilegiado para conferir o quanto essa herança ancestral mexe com quem se dispõe a ir à rua e seguir a folia. Um exemplo disso é o coreano radicado nos Estados Unidos Jae Shin, que chegou ao estado no início do ano para aproveitar seu primeiro carnaval em Pernambuco. No seu caso, o frevo foi o responsável por dar uma nova perspectiva de relação com o corpo.

O passista conta que ouviu a música pernambucana pela primeira vez por acaso, em um evento ocorrido na Califórnia (EUA), onde mora, em 2013. “Vi uma apresentação do Maestro Spok lá e não sabia nada sobre o frevo, mas meu coração bateu muito forte. Isso se traduziu em meu corpo e em movimentos brincantes e mudou minha vida. Trabalho com finanças, mas tenho muita paixão pelo frevo. Não sei o porquê, mas sinto que não posso desistir”.   

Mesmo trabalhando com finanças nos EUA, sua afinidade com a cultura brasileira já é exercitada há anos. Jae era capoeirista antes de conhecer o frevo. Após ter esse primeiro contato, ele passou a pesquisar vídeos na internet e seu mestre de capoeira indicou o livro Frevo, capoeira e passo, de Valdemar de Oliveira, que explica as origens da dança. O interesse se intensificou ainda mais após sua primeira vinda ao Brasil, em agosto de 2015, quando teve aulas na Escola Municipal de Frevo Maestro Fernando Borges, com os Guerreiros do Passo e no Paço do Frevo. De volta à Califórnia, continuou se aperfeiçoando com bailarinos pernambucanos de passagem pelos EUA, como o passista Otávio Bastos e a Cia. Artefolia. No ano passado, tanta dedicação rendeu uma conquista, com a vitória no primeiro concurso europeu de passistas de frevo. Neste ano, ele foi um dos concorrentes no concurso de passistas promovido pela Prefeitura do Recife.

Em seu primeiro período carnavalesco na capital pernambucana e em Olinda, Jae acompanhou alguns blocos e troças, como Cariri, Pitombeira, Bloco da Saudade e Trinca de Ás, e fez algumas observações sobre como os locais aproveitam a folia. “Aqui, as pessoas aplaudem ou desfilam junto com os blocos em vez de dançar, de brincar de fato. Não precisa ter movimento bonito, acho que o frevo é explorar o corpo”.

A francesa Anaïs de Laltre-David, por sua vez, fez da conexão com Pernambuco um modo de vida. A artista veio passar o carnaval de 2007 no estado e se encantou. “Não há outra palavra para descrever o que senti. Quando pisei aqui pela primeira vez, ouvi o som da rabeca e fiquei impressionada com a semelhança com o som da minha terra, Toulouse. Eu já trabalhava com teatro e dança na França e o encontro com esse lugar e com pessoas daqui mudou minha percepção de arte. Dadinha Gomes, do Maracatu Nação Pernambuco, por exemplo, é muito importante para mim. Na cultura popular, você vê uma integração. É preciso dançar, cantar, tocar, ou seja, vivenciar. Na Europa é o contrário, as coisas são mais separadas. Sou completamente francesa, mas me encontrei aqui”.

Agradecimentos: Paço do Frevo e Cia. de Dança Tareco e Mariola