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Índios sob nova catequização Documentário Ex-pajé fala sobre o impacto da onda de evangelizações das aldeias brasileiras

BRENO PESSOA
breno.pessoa@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 17/05/2018 03:00

O processo de violência contra povos nativos iniciado no período colonial do Brasil pode até ter mudado os métodos, mas não cessou. Ex-Pajé, documentário de Luiz Bolognesi em exibição no Cinema da Fundação/Museu a partir de hoje, faz um retrato sensível sobre o impacto da atual onda de evangelização das aldeias no país, especificamente a partir da história de Perpera Saruí, um pajé que se vê obrigado a deixar de lado a fé e as tradições. O título foi premiado pela crítica como melhor documentário no Festival É Tudo Verdade e levou o prêmio especial do Júri Oficial de Documentários da Mostra Panorama no Festival de Berlim.

Ex-pajé é escrito e dirigido por Luiz Bolognesi, mais conhecido pelo trabalho como roteirista em filmes como Bicho de sete cabeças (2000) e Bingo: o rei das manhãs (2017). O cineasta já havia feito outras incursões relacionadas à temática indígena, entre elas a animação Uma história de amor e fúria (2013), que conta a história do Brasil a partir da mitologia tupinambá.

Pajé da aldeia Paiter Suruí, instalada em território localizado no sudeste de Rondônia e noroeste de Mato Grosso, o protagonista e seu povo tiveram o primeiro contato com brancos em 1969. Entre essas presenças, evangélicos que iniciaram um movimento de doutrinação. Após um longo processo de constrangimentos através do pastor, que classificava a tradição ancestral indígena como demoníaca, Perpera foi deixando suas práticas de lado.

“Fiquei perplexo, nunca tinha visto um ex-pajé”, recorda Bolognesi sobre o primeiro contato com Perper. “Ele me contou que não podia dormir de luz apagada, porque os espíritos estavam com raiva dele”, diz o diretor sobre os conflitos internos vividos pelo indígena desde que ele deixou de lado as tradições. “É impressionante. No século 16 tínhamos os jesuítas, calvinistas e capuchinhos fazendo um trabalho de evangelização forçada, hoje isso volta com as igrejas evangélicas”, complementa Bolognesi, que enxerga a movimentação como um projeto político. “O objetivo é a catequização absoluta”, diz, citando o expressivo poder da bancada evangélica no congresso e o fato de o Partido Social Cristão (PSC) estar, atualmente, no comando da Fundação Nacional do Índio (Funai).

Embora tenha, inevitavelmente, caráter denuncista e retrate uma questão ampla que afeta os povos nativos do país, Ex-pajé explora a problemática a partir de um drama individual e tem narrativa bastante contida. Sem entrevistas ou exposição de dados a respeito dessa catequização contemporânea, o documentário consegue transmitir a violência simbólica e psicológica enfrentada rotineiramente por índios brasileiros.

Conduzido de forma delicada e lírica, o filme é cheios de momentos de silêncio e contemplação e valoroso em dois aspectos muito distintos. Por um lado, traz à tona os efeitos de uma longa cadeia de opressão e aniquilação indígena praticado por diferentes agentes. Mas, em paralelo, também direciona o olhar para a beleza e sabedoria das tradições ancestrais desses povos.

O diretor deve continuar a imersão cinematográfica em povos nativos nos próximos filmes e já planeja um documentário sobre a presença da figura do pajé em uma comunidade yanomami, além de uma ficção animada.

3 perguntas // Luiz Bolognesi - diretor e roteirista

Outros filmes escritos e dirigidos por você abordam questões indígenas. De onde vem essa relação com o tema?
Não é coincidência, é muito importante para mim, desde a época da faculdade. Estudei cinco anos de antropologia e segui trabalhando muito próximo de comunidades indígenas, como os Pataxós e Guarani-Kaiowá. A questão dos povos nativos da América, do conhecimento que eles têm, a maneira como eles vivem, sua filosofia, ética e estética me interessa muito.

Ex-pajé tem um apuro visual raramente visto em documentários. Qual a razão dessa maior preocupação com a estética?
Os documentários quando vão nas aldeias filmar, vão com sentimento de urgência, pressa, atrás do acontecimento. Eu entendo e respeito, mas não é o que queria usar. Tenho a impressão que a beleza e potência deles (dos indígenas) não pode ser traduzida dessa maneira. É preciso observar com um olhar de contemplação. Se você abre o quadro, percebe que ao lado da casa deles tem um pé de mamão como você não encontra em lugar nenhum, plantado com as melhores sementes, com a terra preparada como só eles sabem fazer. No quintal, eles têm onça, araras voando de um lado para o outro. Busquei uma fotografia que não fosse invasiva, rigorosa, que respeitasse o tempo e a cena, com enquadramento maior, contemplando a existência.

Isso também se reflete no ritmo do filme, que tem uma cadência mais lenta.
Me pareceu a maneira mais bonita de contar essa história, e afirmar, através do filme, a potência dos povos nativos, filmar de maneira parecida como eles enxergam o mundo. São povos abertos ao devir, abertos ao acaso, vivem o aqui e o agora. Eles olham o mundo contemplando, não apenas vendo, têm pouca ansiedade e queria traduzir isso para o cinema.