Comportamento

Um 'extraterrestre' na terra do frevo Ivson perdeu interesse pelo carnaval gradativamente. Neste ano, seu destino será a tranquilidade da Praia de Maria Farinha e os jogos da Liga dos Campeões

Publicação: 10/02/2018 03:00

Ser chamado de extraterrestre já não incomoda Ivson Henrique da Silva Gomes, 27 anos, quando revela ser avesso ao carnaval. O editor de vídeo e universitário ouve a comparação há bastante tempo. Por seus cálculos, 10 ou 11 anos. A característica de “gente de outro mundo” se fortaleceu com a proximidade dos anos finais do ensino médio. “Fui envelhecendo e perdendo o interesse pelo carnaval”, confessou.

A aversão chegou ao ponto de Ivson afirmar que não gosta “por conviccção”. Esse sentimento se desenvolveu mais pelo descontrole das pessoas, devido à ingestão excessiva de bebida alcoólica e pelos problemas relacionados à festa do que pelo simbolismo dela. A violência e as consequências do uso das drogas, licítas ou não, à saúde, são apontadas como outros elementos que fortaleceram esse sentimento.

Quando não se gosta de algo, uma das atitudes é se distanciar. Isso levará Ivson, neste ano, a uma programação movida a futebol e mar. A praia escolhida para o descanso será Maria Farinha, em Paulista, cidade em que o universitário reside. E o futebol será visto na televisão. Em especial, as partidas da Liga dos Campeões da Europa. Programação considerada ideal por estar longe de multidões e do barulho dos clarins, das orquestras de frevo, das alfaiais dos maracatus e das preacas dos caboclinhos.

Sobre o carnaval, Ivson pretende escutar somente uns instantes na televisão e dos relatos da namorada Beatriz, 25. Enquanto ele pretende se recolher, ela vai se divertir com um grupo de amigos do casal. A agenda do grupo inclui o bloco carnavalesco da turma de faculdade de Ivson. Para o desfile, o editor foi convidado várias vezes. A turma cansou de fazer convites. As negativas renderam a ele o adjetivo de “estranho”.

“Gosto de ver as agremiações. Se não tivesse multidão, eu até parava para ver os desfiles dos maracatus, que resistem e preservam a tradição”, completou. Como multidão e carnaval pernambucano são sinônimos, Ivson ficará apenas na vontade de ver os maracatus de perto nas ruas. Para ele, as lembranças da época em que os pais o levavam à folia olindense, na infância, e o silêncio de casa bastam no carnaval.

Folia na infância, sossego na fase adulta

O carnaval esteve na agenda da professora Raquel Carapeba, 27 anos, durante a infância. A cada ano, nova fantasia. Ela se vestiu de cigana, bruxa, odalisca, bailarina e pintinho amarelinho. Apesar da brincadeira estar no sangue da família, a professora cresceu com um olho no frevo e outro no que acontecia no entorno. As observações contribuiram para ela se afastar da folia. “Acho uma manifestação bonita, mas comigo longe dela”, afirmou. O seu distanciamento da festa ultrapassou mais de uma década.

“Nunca gostei do calor, da multidão e do aperto dos dias de carnaval”, revelou Raquel. Esta tríade sempre incomodou a professora, assim como cenas de pessoas alcoolizadas e sentindo-se mal nos desfiles dos blocos, maracatus e caboclinhos em Olinda, onde a família costumava se divertir. Criança, Raquel era puxada pelo pai Isnar Gonçalves, um bancário aposentado e apaixonado pelo carnaval, e pela mãe, Roseane Carapeba. Essa “nem tão apaixonada” pelo reino de Momo.

O descorto das ruas, aliado ao fato de Raquel beber pouco, criou uma barreira à festa. As amigas tentaram demover a resistência da professora. Trabalho em vão. Até a idade de 15 ou 16 anos, detalhou, as amigas insitiram em convidá-la para o carnaval. Fortam tantos “nãos” que desistiram dos convites. Em nome da amizade, ela se prontificou, na fase adulta, a guiar amigas de São Paulo no carnaval de Olinda. Ciceroneou sem cair na folia. “Apresentei o carnaval, mostrei as ruas, disse que se virassem e voltei para casa”, diverte-se recordando do ocorrido.

Provas
Sem o compromisso de foliã, a professora canalizou a energia para outras coisas. A praia, por exemplo. Neste ano, ela deixa o Recife e vai a Tamandaré, município do Litoral Sul do estado. A programação dos dias de carnaval não será apenas de descanso e banho de mar. Raquel, da área de geografia, vai aproveitar o período para elaborar as provas das 13 turmas, dos ensinos Fundamental e Médio, que ensina. Na bagagem, livros didáticos e livros para relaxar a cabeça. Nada sobre carnaval.

Dias de preces e reflexões na igreja


O carnaval da secretária Ane Kely de Moura Cavalcanti, 29 anos, será de orações. Nos quadro dias, é possível que ouça algum frevo, samba ou maracatu nos retiros espirituais de que vai participar. As letras das músicas fugirão ao convencional. Exaltações a agremiações carnavalescas, datas comemorativas, personagens históricas e recordações de amores conquistados ou perdidos serão substituídas por mensagens religiosas. Ela deixou a folia, com temor da violência, para abraçar o divino.

A troca de parâmetro de vida foi uma opção para melhor, segundo Ane Kely. “Encontrei algo mais importante para fazer”, justificou. Isso significou o afastamento dos corredores da folia, no Recife e em Olinda, lugares frequentados por ela até “uns 18 anos”. Esse corredores perderam espaço na história da secretária a partir do convite de um amigo dela para que participasse de um encontro católico durante o carnaval, na igreja matriz do Espinheiro. Foram dias de palestras, louvor e adoração.

Do encontro no Espinheiro até hoje, a trajetória da secretária seguiu a mesma. Ela entra nos retiros espirituais enquanto a folia rola nas ladeiras de Olinda e nas ruas do Recife. Perdeu o interesse pelo carnaval e se engajou na igreja. A mudança de Ane Kely refletiu dentro de casa, tendo os seus pais, Arlindo Rodrigues, 72, e Iranilda de Moura Cavalcanti, 65, a repetirem o gesto da filha. “Vivo um outro carnaval”, entende, acrescentando que o novo carnaval não é uma fuga, mas uma escolha.

Em relação ao carnaval em si, o profano, a secretária diz que se afastou devido aos crimes registrados e os excessos dos foliões. As manifestações culturais da festa, conforme Ane Kely, merecem respeito por serem um dos diferenciais de Pernambuco e por se manterem firmes diante do rolo compressor do mercado. Os maracatus, blocos e caboclinhos resistem nas ruas e a secretária, ligada à Renovação Carismática Católica (RCC), resiste na fé. Distante do barulho.

Nada de aperto, calor e estresse


O roteiro para os dias de carnaval do servidor público Adelbar Lima, 44, está pronto. Nada de sobe e desce nas ladeiras, pulos no Bairro do Recife ou idas a Bezerros. Ele inclui exercícios na academia, bons pratos e filmes. Três obras do cineasta sueco Ingmar Bergman estão separados na estante dele.

Adelbar diz que, apesar de ter brincado alguns anos, nunca viu o carnaval como algo importante, essencial à vida. E o que o leva a pensar desta maneira é não gostar de aglomerados, de “gente pisando nos meus pés”, da falta de opção de boas comidas e de acesso a um transporte público de qualidade. “O carnaval é uma organização desorganizada e isso não me faz bem”, pontuou.

Vendo a folia por este ângulo, a possibilidade de se apaixonar pelo carnaval é pequena. Por isso, ele foge dos desfiles do Galo e das troças de Olinda. Entre as críticas mais comuns é de que é pernambucano e este, no senso comum, sempre gosta de frevo. Engano. Adelbar está correto em seu ponto de vista. Não curte carnaval, mas é um verdadeiro pernambucano.