Comportamento

Eu, roboa Bonecas sexuais que falam, o novo remédio para a solidão dos chineses

Joanna CHIU
DA AGÊNCIA FRANCE-PRESSE

Publicação: 10/02/2018 03:00

Dalian - As bonecas sexuais da “nova geração” falam, tocam música e colocam para funcionar uma lava-louças se for pedido. Na China, com muito mais homens do que mulheres, uma empresa oferece mulheres feitas de silicone para solteiros e idosos que sofrem de solidão.

Os corpos nus das bonecas estão alinhados na oficina da empresa especializada Exdoll, localizada na cidade portuária de Dalian (nordeste). “Como você se chama?”, pergunta o programador de jaleco branco a uma loira com camisola transparente. “Me chamo Xiaodie, mas você pode me chamar de ‘baby’”, responde ela em mandarim com voz de robô. O engenheiro pede que toque uma música. Dito e feito. A boneca emite uma balada tradicional.

A Exdoll se baseia nos progressos da inteligência artificial para criar bonecas capazes de se expressar. Seu objetivo é combater a solidão dos solteiros, idosos e deficientes. Na China, o desequilíbrio entre homens e mulheres é enorme: 33,6 milhões a mais de homens do que mulheres em uma população de 1,4 bilhão de habitantes. Isto se deve à chamada política do filho único que, entre os anos 1970 e 2015, proibia que a maior parte dos casais tivesse mais de um descendente.

A preferência pelos homens - que transmitem o sobrenome e quando adultos fornecem mão de obra à família - levava alguns casais a recorrer a abortos seletivos. Atualmente, no país nascem 114 meninos a cada 100 meninas, uma defasagem muito maior em relação à média mundial. O envelhecimento rápido da população leva a um grande número de idosos viúvos.

“A China tem uma escassez de mulheres. É um fator que alimenta a demanda de nossos produtos. Mas nossas bonecas não se limitam a propor sexo”, explica Wu Xingliang, diretor de marketing da Exdoll.

Sentado entre duas bonecas - uma com minissaia e outra com uniforme de aluna japonesa -, Wu está convencido de que a empresa para a qual trabalha pode resolver alguns problemas sociais. As bonecas inteligentes “podem manter conversas profundas e ajudar com as tarefas domésticas. No futuro, inclusive, poderão prestar assistência médica”, afirma.

Xiaodie está equipada com uma função wi-fi similar ao sistema Siri dos iPhones. Pode navegar pela internet, ser controlada via smartphone e responder às ordens vocais. A moça virtual, que custa 25 mil iuanes (3.200 euros, US$ 4 mil, também liga e desliga eletrodomésticos conectados, como as lava-louças.

A empresa, que emprega 120 pessoas, começou a desenvolver as bonecas-robôs em 2016 e sairão à venda nos próximos meses. A cada mês o grupo também fabrica cerca de 400 bonecas “tradicionais” sob medida. Os clientes podem escolher a altura, o tamanho dos seios, a quantidade de pelo púbico, a cor da pele, dos olhos e do cabelo.

A Exdoll confia em melhorar seus modelos no futuro, acrescentando reconhecimento vocal, expressões faciais complexas e a capacidade de seguir o usuário visualmente. “Queremos um robô com o rosto mais bonito possível e o corpo mais excitante possível”, resume Qiao Wu, diretor de Desenvolvimento da empresa. Segundo ele, as primeiras bonecas com inteligência artificial ultrarrealistas estarão disponíveis daqui a 10 anos.

A China fabrica mais de 80% dos brinquedos sexuais produzidos no mundo. O setor emprega um milhão de pessoas no país e representa US$ 6,6 bilhões em volume de negócio. O curioso é que estas bonecas-robôs não desagradam os defensores chineses dos direitos das mulheres.

“Um grande número de homens espera o mesmo das mulheres: sexo, tarefas domésticas, filho. Não as consideram indivíduos”, declara a militante feminista Xiao Meili. “Se todos estes desgraçados comprarem uma boneca, livrarão um certo número de mulheres destes tipos”.

“Elas podem manter conversas profundas e ajudar com as tarefas domésticas. No futuro poderão prestar assistência médica”
Wu Xingliang, diretor de marketing da Exdoll