DECORAÇÂO

Orgulho de onde eu vim Trazer referências culturais para dentro de casa pode mostrar muito mais que seu gosto e personalidade. Valorizar o artesanato local é se conectar com o mundo

Gabriela Bento
Especial para o Diario
gabriela.bento@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 10/02/2018 09:00

Pernambuco é um celeiro de grandes artistas, isso não dá para negar. E se tem algo que o pernambucano pode se orgulhar é da sua cultura, que pode caber muito bem na decoração do seu lar. Caso decida incorporar objetos regionais na sua casa, você pode colocar um pouco de arte do estado na sala, quarto, cozinha ou onde desejar, pois o acervo é extenso: esculturas do barro de Caruaru, herança do mestre Vitalino, rendas de Pesqueira, tapetes de Lagoa do Carro e as famosas carrancas de Petrolina, dentre várias outras opções. Por menores que sejam, essas peças garantem elegância e personalidade em uma decoração contemporânea, que conversa e valoriza o que é da terra e conta história da sua origem e por onde você passou.

Sensação de pertencimento, é o que a cineasta Katia Mesel passa ao falar do seu lar muito bem decorado com artesanatos de todos os lugares que visitou no mundo. Tudo lá é importante e tem o seu valor, principalmente se for feito à mão. “Sou pernambucana ‘da gema’. Fui criada com os folguedos populares, maracatu, caboclo de lança. Cresci inserida na minha cultura, fui criada popularmente, e aprendi a admirar todas as outras”, explica.

Toda a decoração da casa da cineasta tem um propósito. As peças são expostas como em uma galeria e a dona sabe o nome de cada artista, demonstrando que dá valor a cada item que tem. No apartamento de Katia, podem-se encontrar peças antigas, herdadas dos ancestrais, e peça que ela adquiriu ao longo da vida. O resultado é uma decoração que conta uma longa história, mas que é muito contemporânea e nada atrasada. “Tenho peças que têm 40 anos e outras mais recentes. Aqui temos os cangaceiros de Galdino, peças de Tiago Amorim, Ana Veloso, Sonia Malta, Didi dos Santos... Até os meus vestidos e calçados são de artesãos”. Atualmente, Katia só encontra um problema em continuar com a decoração da casa “Agora me policio para não comprar muita coisa”.

Há uma tendência do igual, que pode, sim, ser combatida com a irreverência pernambucana. Os lares não precisam ter a mesma cara e necessitam trazer a essência do dono. O arquiteto Romero Duarte procura sempre valorizar a arte local em seus projetos de acordo com o que lhe foi ensinado. “Não acredito em projeto sem referências culturais. Todos trazemos essas marcas de nossas histórias, do nosso percurso durante a vida. A grande Janete Costa, nosso maior ícone da arquitetura pernambucana, já nos mostrava como valorizar nossas origens através de seus projetos”, conta.

A procura pelo mais moderno pode ser justificada pela falta de tempo e pelo aspecto prático, mas, segundo Romero Duarte, há um risco que se corre quando começa um projeto nesse formato. “Infelizmente, o consumo pelo novo e a negação das referências fazem algumas pessoas descartarem objetos e peças tão bacanas para complementar uma arquitetura multicultural. Uma casa sem essa marca parece vazia, fria e impessoal”, comenta. O lar deve ser reflexo do morador. “Nos meus projetos, analiso a história de cada cliente, localizo referências e procuro inseri-las no resultado final do ambiente. Acredito em uma casa com a ‘cara’ de quem mora, trazendo personalidade e muita cultura”.

Inserir peças regionais, além de exaltar a história pessoais, familiares e do seu contexto social, valoriza a economia local, não dando margem ao consumo do rápido e volátil. Mais do que reconhecer o devido valor do que é o artesanato da terra, para a arquiteta Madalena Albuquerque, do escritório Newman Belo e Madalena Albuquerque, essa atitude também exalta pessoas e as tira do anonimato. “Nós, arquitetos, somos propagadores. Temos o papel social de destacar o trabalho de artistas anônimos e a cultura do estado”, alerta.  

Uma história em cada peça de cada cômodo
Cineasta Katia Mesel levou para o lar artigos produzidos por artistas de cada lugar do mundo que visitou. Criada na cultura popular, aprendeu a admirar as manifestações de qualquer espécie

Dicas para ornar

  • Procure peças que conversem com a sua origem e identidade
  • Não precisa comprar muito coisa, o ambiente pode ficar confuso
  • Adquira o que lhe dá orgulho de possuir
  • Não fique preso a um tipo de obra: é possível comprar lençóis de renda de Pesqueira ou uma colorida manta de fuxico, por exemplo
  • Valorize a história da peça e de quem a fez