DIARINHO

Reinos além da imaginação Figuras recorrentes na história e na ficção, castelos mexem com idealização do público sobre estilos luxuosos de vida e cotidianos marcados por aventuras e guerras

Publicação: 15/04/2017 03:00

Tão comum quanto o “era uma vez”, a imagem de grandes castelos talvez seja alguns dos primeiros conceitos que desenhamos na imaginação desde as primeiras leituras. Muito além de servir de cenários para ficção - ainda que praticamente todas as princesas dos contos de fadas tenham contato com um deles -, castelos servem de recursos importantes na história do mundo e no desenvolvimento de cidades inteiras como as conhecemos hoje.

É na brincadeira de unir esses papéis tão distintos que reside o incentivo à imaginação tão bem-sucedido na literatura e no cinema, que transpassa o campo da arte. Na Romênia, o Castelo de Bran, próximo à fronteira com a Transilvânia, é um dos destaques turísticos locais, internacionalmente conhecido por supostamente abrigar o mais famoso dos vampiros - nada de Cullens, o Conde Drácula. Quando a associação não é natural, imediata e associada após o sucesso de uma obra, o caminho inverso também é pavimentado, como a construção real do castelo de Hogwarts, em Orlando, na Flórida (EUA), como forma de atrair fãs da saga do bruxinho Harry Potter. E, dessa forma, arte e realidade seguem se cumprimentando em nome de um entretenimento cultivado desde nossa primeira infância.

Originalmente, essas obras arquitetônicas, na verdade, não tinham vocação especial para a estética, mas para a defesa. Cidades inteiras funcionavam dentro de seus muros, tendo o palácio como residência oficial das majestades e dos nobres sob sua proteção e as torres como recursos de vigilância e defesa. Elas eram construídas em locais altos ou de difícil acesso, justamente para dificultar ataques inimigos, mesmo motivo pelo qual muitas eram munidas de fossos e pontes levadiças - tentativas de evitar que o local fosse tomado numa guerra. O glamour eternizado por obras infanto-juvenis, no entanto, não faz jus à realidade comum de seus interiores, normalmente expostos a fortes variações de temperatura e bastante úmidos e escuros.

Apenas a beleza e “aura nobre” dos castelos acabaram importadas e sobrevivem no imaginário coletivo, mesmo que com um “pé” na realidade, a exemplo do castelo de A Bela Adormecida, adaptado de uma construção real na Baviera, na Alemanha. Ainda hoje, há obras do gênero à venda, como imóveis comuns - a menor delas, no Reino Unido, o Molly's Lodge, construído em 1830 em Warwickshire, ao preço equivalente de R$ 2,1 milhões, menos que diversos apartamentos localizados na Avenida Boa Viagem, no Recife.

A influência dessa cultura, no entanto, se restringe à Europa e a imagem de riqueza atrelada a esses imóveis também influenciou a arquitetura local - os poucos castelos construídos em Pernambuco e no Brasil também tentam reproduzir a ideia de luxo e amplitude dos castelos da ficção, mesmo que o uso deles não faça parte da história do país, que não experimentou a cultura da Idade Média europeia como a conhecemos.