Educação e Religião

ENTREVISTA » Irene Quintáns Arquiteta urbanista consultora de projetos urbanos e especialista no tema cidade e infância

Publicação: 03/02/2018 03:00

O que influencia no olhar da criança sobre a cidade?
A forma como uma criança usa a cidade é muito determinada pela permissão dos pais. Ela tem um olhar muito sensível, vê detalhes e beleza em lugares que você nem enxerga. Se você puxa o filho pela mão, manda ele correr, não parar, tira dele a oportunidade de curtir os pequenos detalhes. Se a criança tem contato com a cidade de fato, ela tem outro olhar. As crianças pensam muito no bem comum. É um olhar mais generoso.

Como o contexto social influencia no deslocamento das crianças?
Geralmente nas áreas nobres você vê mais famílias levando as crianças de carro e nas zonas periféricas elas vão mais a pé. Mas, nas cidades brasileiras, há muitas realidades diferentes. Nas periferias você vê crianças um pouco mais soltas, mas nem tanto. Temos uma lenda urbana de que na periferia as crianças estão sempre na rua. Há uma tendência cada vez pior de a criança ficar grudada na tecnologia, prefere isso a sair de casa. Por outro lado, a cidade fica mais hostil e difícil de ser usada como espaço de convívio.

Como seria um modelo ideal de educação para o trânsito para as crianças?
Cerca de 99,9% dos programas de educação para o trânsito têm o mesmo problema. Ensinam que você precisa andar pela calçada, atravessar na faixa e quando o sinal estiver vermelho. Só que as cidades são feitas priorizando os carros. Você não ensina que a cidade pode mudar. A criança não sabe disso porque ninguém ensina. Ela é ensinada que se algo errado acontecer, a culpa é dela. Mas os culpados também podem ser os motoristas que estão muito rápidos, cometendo infrações, ou o poder público que não pintou a faixa. A educação de trânsito faz com que a criança seja a culpada. É preciso ter uma visão mais de conjunto, de sistema. A educação de trânsito tem que mudar o olhar dela, tem que ensinar a criança que deve-se atravessar no lugar certo, mas que a cidade é espaço para todos.

Como esse modelo de educação para o trânsito impacta na vida da criança?
Impacta no olhar que a criança tem para a cidade. Se ela vai se submeter à minoria que é o motorista, a um modelo de cidade já ultrapassado, ou se será uma criança questionadora, propositiva, capaz de pensar no que ela faria para melhorar a cidade. A tendência é que as cidades passem a distribuir o espaço entre diferentes meios de transporte, aumentando os espaços públicos. Essa é a cidade do século 21.

O que falta às cidades brasileiras no que diz respeito à mobilidade infantil?
Getalmente quando pensamos políticas de infância pensamos em assistência, em creche, mas é preciso pensar a mobilidade infantil dentro das secretarias de planejamento urbano e transporte também. Você precisa compreender que é importante para todo o sistema urbano.