Educação e Religião

Novos horizontes

Publicação: 03/02/2018 03:00

Entre a casa e a escola, existe um território de oportunidades para as crianças: a própria cidade. Estimular a mobilidade ativa infantil é oferecer instrumentos para a formação cidadã, pois caminhando ou andando de bicicleta pelo espaço em que vive a criança internaliza diferenças, identifica problemas e adquire uma posição questionadora em relação à urbe. Ajoelhar o planejamento urbano à altura dos pequenos olhares é também uma estratégia de desenvolvimento, como evidenciou o projeto Recife 500 anos.

Caminhar e brincar pelas ruas e avenidas estimula o sentido de pertencimento e dá à criança referências para a criação de um mapa mental. A população infantil precisa de contrastes para formular a compreensão de que a cidade é um bem de todos, explica o presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Pernambuco (CAU-PE), Rafael Tenório. No adulto, cujo entendimento sobre a importância da fluidez, dos passeios públicos qualificados, da arborização, já está formatado. “A maior ação de mobilidade para as crianças é fazer com que elas descubram a cidade, conhecendo não só o parque do bairro, mas outros equipamentos”, afirma.

A servidora pública Mariana Guerra, 31 anos, viveu uma infância aprisionada por trás das janelas de um carro. O primeiro percurso de ônibus de Mariana foi aos 15 anos. Naquele momento, ela começou a perceber as cicatrizes da falta de autonomia. “Eu não tenho noção do Recife, já me perdi inclusive no meu bairro. Me assusta, parece que estou sempre limitada aos mesmos lugares”, relembra.

Mariana não ia sozinha pelo medo dos pais. O transporte ativo das crianças depende de garantir equipamentos urbanos que confiram segurança aos deslocamentos. A falta de uma faixa de pedestres e um semáforo na esquina de casa retiram a liberdade de Isaias Cardoso, 11. “Já vi muito acidente, inclusive com menino indo para a escola. Precisamos esperar um tempo enorme para conseguir atravessar. Ele só vai comigo”, conta a mãe, a dona de casa Jaqueline Conceição, 40, moradora da Bomba do Hemetério.

Depois de fazer uma série de consultas públicas para montar uma estratégia de futuro, o Recife identificou que pensar políticas para a primeira infância deve ser prioridade no projeto dos 500 anos. A cidade nivelará o horizonte de mudanças aos 95 centímetros do chão, a altura média de uma criança de três anos. Com o apoio da fundação holandesa Bernard Van Leer, a capital começará a implementar neste semestre o programa Urban95. “Parte-se da premissa de que uma cidade pensada e construída para uma criança de três anos consegue ser saudável e segura a qualquer faixa etária”, explica o gerente de projetos da Agência Recife para Inovação e Estratégia (Aries), Diego Garcez.

Serão implementadas intervenções urbanísticas focadas na primeira infância em duas áreas - Iputinga e Alto Santa Terezinha - escolhidas pelos índices de vulnerabilidade social. “Iniciamos um estudo há um ano e identificamos a ausência de espaços para brincar, ruas sem calçamento, lixo, esgoto a céu aberto, fatores que comprometem a mobilidade infantil”, detalha Garcez.

As intervenções, ainda a serem definidas junto à comunidade, funcionarão como conectoras e disparadoras de uma nova cultura de aglutinação de pessoas. Assim como piloto para desencadear políticas públicas semelhantes.