Educação e Religião

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Publicação: 03/02/2018 03:00

Dar alternativas não motorizadas às crianças para se deslocarem pela cidade é cuidar da saúde delas. Uma pesquisa realizada pela indústria inglesa de sabão em pó Omo em mais de 10 países mostrou que a população infantil passa menos tempo ao ar livre do que um presidiário, condição que está inflando as estatísticas de sedentarismo e obesidade infantil.

O número de crianças obesas no mundo já é 10 vezes maior do que o registrado há 40 anos. No Brasil, o sobrepeso já é realidade para 7,3% das pessoas com menos de cinco anos. Dados da última Pesquisa Nacional de Saúde Escolar mostram que sete em cada 10  estudantes pernambucanos no 9º ano do Ensino Fundamental realizam menos horas de atividades físicas semanais do que o recomendado pela Sociedade Brasileira de Pediatria. Por outro lado, metade deles costuma passar mais de três horas em atividades que fazem sentados.

“Há uma lista de doenças na infância associadas com a obesidade. Apneia do sono, problemas respiratórios, refluxo, diabetes tipo 2, presença de gordura no fígado. E quando mais cedo você apresentar obesidade, mais cedo você terá complicações”, alerta a endocrinogista membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Endrocrinologia e Metabologia Regional Pernambuco (Sbem-PE) Lúcia Cordeiro.

A Organização Mundial da Saúde recomenda que as crianças pratiquem 60 minutos de atividades físicas por dia. Nem sempre a prática esportiva da escola é suficiente para garantir saúde e evitar o ganho de peso, foi o que descobriu a biomédica Maria Mileide Montenegro, mãe de Gabriel, 9. “Ele começou a ganhar peso durante uns seis meses, então buscamos alternativas”, disse ela, que não se sente segura para deixar o filho na rua e procurou uma academia particular.

Especialistas alertam que as famílias podem considerar o trajeto de casa para a escola uma oportunidade para a prática de atividades das crianças, que pode repercutir inclusive na processo de aprendizagem. “Por meio dos estímulos, as crianças desenvolvem habilidades motoras fundamentais para a vida adulta: correr, arremessar, saltar”, afirma a educadora física da academia infantil Hora do Recreio Joseane Mariz. Na Dinamarca, uma pesquisa mostrou que crianças que vão a pé ou de bicicleta para a escola permanecem mais concentradas na aula. Estudos correlacionam o hábito ainda a melhorias no desenvolvimento cognitivo e das funções cerebrais.

Proposições

Ainda longe de ser uma cidade adequada à mobilidade ativa infantil, o Recife conta com poucas iniciativas que pensem no deslocamento e na vivência urbana a partir da ótica das crianças. O primeiro passo para começar a conceber uma cidade melhor para as futuras gerações foi dado com a conclusão da Pesquisa Origem-Destino do Recife, realizada entre 2015 e 2016 e divulgada no ano passado. Os resultados vão nortear o planejamento urbano a partir dos deslocamentos dos moradores.

O levantamento mostrou, por exemplo, que, de forma geral, 37% das pessoas que levam os filhos à escola no Recife vão a pé. Outros 30% vão de carro e 17% de ônibus. Se for feito um recorte de classe, porém, os números mudam consideravelmente. Nas famílias que recebem até um salário mínimo, 55% vão a pé; 28% de ônibus e 4% de carro. Por outro lado, entre os que recebem mais de 20 salários mínimos as porcentagens são de 22% a pé; 66% de carro e 2% de ônibus.

O diretor executivo do Planejamento da Mobilidade do Recife, Sideney Schreiner, esclareceu que, a partir dos resultados, estão sendo estruturados programas de ação. “Esses dados reforçam que precisamos priorizar as calçadas e o transporte público. Estamos desenvolvendo um projeto para o acesso seguro e saudável das crianças à escola, em parceria com a ONG WRI, o Ruas Completas para a Escola, com identificação de vias do trajeto casa-escola prioritárias para receber melhoria de calçadas, arborização, iluminação e segurança. Quando concluído, será entregue ao poder público, a quem caberá colocá-lo em prática”, pontua. 

Atualmente, boa parte das ações públicas são campanhas nos períodos de volta às aulas e em maio, quando acontece o Maio Amarelo, que chama atenção às mortes no trânsito.

“A mobilidade infantil se pensa a partir da ideia de que a criança deve ter conhecimento para se locomover com segurança desde o momento em que anda e usa o espaço público. Vamos às escolas realizar campanhas nesse sentido. Sempre reforçamos que os pais são exemplo às crianças, que repetem o comportamento deles quando crescem”, afirma o coordenador do Programa Municipal de Educação para o Trânsito, Francisco Irineu.

O Detran-PE coordena quatro projetos voltados ao público infantil. O principal é o Condutor do Amanhã, que sensibiliza alunos do Ensino Fundamental, ensinando normas de trânsito e promovendo a vivência em um circuito prático, com os papéis de pedestre, motorista e ciclista.

“Criança é definida como ‘pessoa de mobilidade reduzida’. Ao planejarmos e reabilitarmos as ruas considerando as necessidades infantis, atenderemos grande parte das necessidades cidadãs. Ao promover a desaceleração dos veículos, identificar rotas estratégicas e intervir de maneira integrada, a cidade se prepara para uma mobilidade sustentável e inclusiva”, ressalta a arquiteta e urbanista Clarissa Duarte, professora da Unicap.