Educação e Religião

O medo da rua

Publicação: 03/02/2018 03:00

A Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE), feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério da Saúde e apoio do Ministério da Educação, perguntou a alunos do 9º ano do ensino fundamental se a insegurança motivou alguma falta escolar deles nos 30 dias anteriores ao levantamento, realizado em 2015. No país, 14,8% dos estudantes responderam que sim. Esse percentual é de 15,8% para alunos de escolas públicas e 9% de instituições privadas. Em Pernambuco, a insegurança motivou 17,4% das crianças entrevistadas a faltar as aulas em 2015. No Recife, a taxa foi de 14,7%.

O medo de andar nas ruas é um dos principais argumentos usados pelos pais que moram perto de onde os filhos estudam e usam o carro para fazer o trajeto casa-escola. De acordo com a Secretaria de Defesa Social (SDS), em 2017, foram registrados 119.747 crimes violentos contra o patrimônio, ou seja, a média crimes como roubos, assaltos a ônibus e extorsão mediante sequestro é de 328 por dia no estado. Além dos dados alarmantes, ruas sem movimentação, com calçadas mal conservadas e escuras formam o cenário mais temido por pais na hora de sair com os filhos.

Assustada com as constantes notícias sobre violência, a administradora de empresas Polyana Barbosa, 35, não costuma caminhar com a filha, Luiza, de um ano e 11 meses, nas ruas de Boa Viagem, onde moram. “Antes do nascimento dela eu era uma pessoa. Agora, sou outra. Tenho medo de andar nas ruas e só costumo sair de carro. Ainda assim, fico sempre pensando em como vou tirá-la do carro se formos abordados por um assaltante no trânsito ou em um estacionamento”, relata.

Polyana diz que, por causa do medo, não costuma ir, de segunda a sexta-feira, a áreas públicas da cidade, como parques e praças. “Nos fins de semana, com o meu marido, fazemos passeios para outros lugares da cidade, como a praia, porque eu fico mais perto de Lulu e posso, em um caso de emergência, tirá-la do carro mais rapidamente. Durante a semana, brincamos mais em casa e no playground do prédio”, conta. Luiza vai para a escola pela primeira vez em fevereiro. A escola escolhida pelos pais fica a menos de dois quilômetros do apartamento onde vivem. “Iremos deixá-la e buscá-la de carro”, adianta Polyana.

Ambiente ocupado
A arquiteta e urbanista Irene Quintáns, consultora de projetos urbanos e especialista no tema cidade e infância, pontua que a garantia de segurança no caminho casa-escola não se limita à existência de boas calçadas e de faixas de pedestre. “Imagina uma rua que só tem muros, não tem lojas, não há vida interagindo com a rua. Isso dá menos segurança do que uma rua que tenha cafés, lojas, interação”, explica a especialista.

Segundo a especialista, o conceito “olho na rua” se refere à sensação de segurança ligada à existência de estabelecimentos abertos e circulação de pessoas. “Dá muito mais segurança quando há ‘olhos na rua’ do que câmeras, por exemplo”, enfatiza. Quintáns destaca ainda que o fator determinante para uma criança poder ou não ir só à escola não é apenas a idade, mas o que existe e acontece nesse trajeto, ou seja, como é o entorno do caminho entre a casa e o colégio e ainda como é a convivência social nesses arredores. “Ir só nem sempre significa ir sozinho”, ressalta.