ENTREVISTA

GABOR DE ZAGON » A Itália aposta em Pernambuco Cônsul italiano vem buscando estreitar mais os laços econômicos e culturais entre o seu país e o nosso estado

Kauê Diniz | kaue.diniz@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 13/05/2017 09:00

Há menos de cinco meses em Pernambuco, onde assumiu, em 29 de dezembro, o Consulado da Itália no Recife, o cônsul Gabor de Zagon vem dando os primeiros passos em um dos seus principais objetivos ao encarar esse novo desafio profissional. Apesar de ter de se dedicar às questões burocráticas, naturais às funções consulares, ele vem procurando dar uma nova dinâmica no intercâmbio entre o país europeu e o Nordeste, em especial Pernambuco. Aliás, nesse período já detectou uma característica bastante peculiar ao pernambucano: o orgulho de suas origens. “O que você percebe assim que chega é o grande orgulho que os pernambucanos têm do seu estado”. Nesse movimento de fomentar o diálogo entre os dois povos,  Zagon sugeriu, em um encontro com o embaixador da União Europeia no país, João Cravinho, que a reunião anual com os demais diplomatas do bloco econômico fosse realizada em Pernambuco na próxima quinta-feira. Um outro gesto nesse sentido, no qual o Diario inclusive esteve presente e publicou uma reportagem, foi a visita à cidade de Vicência, no interior do estado, na quinta-feira passada, quando prestigiou o trabalho desenvolvido por um professor, com contribuição do Centro Cultural Dante Alighieri, que vem ensinando gratuitamente o idioma italiano para mais de 300 crianças de escolas da rede municipal e privada do município. Zagon tem mais projetos para estreitar os laços econômicos e culturais com Pernambuco. Já organiza um festival de cinema italiano e trabalha para realizar um evento de design e moda em 2018.

Qual a impressão do senhor nesses primeiros quatro meses à frente do consulado?
Estou conhecendo Pernambuco e o Nordeste. É uma realidade bem diferente da que eu já conhecia, como São Paulo e Rio de Janeiro, muito mais parecidas com a Europa. Você percebe que está em outra terra, que é, assim, a parte mais verdadeira, mais raiz do Brasil. O que você percebe assim que chega é o grande orgulho que os pernambucanos têm do seu estado. Têm uma grande sabedoria. Todo mundo sabe muitas coisas sobre Pernambuco. Acho que deve ter sido a escolha de algum governo pernambucano que quis crescer, aumentar essa consciência pernambucana para criar uma consciência local. Acho que foi um sucesso porque todo mundo é muito orgulhoso, conhece os símbolos e história de Pernambuco. Até as pessoas muito humildes têm ciência desse regionalismo. Não é em todos os lugares que as pessoas conhecem as raízes culturais. Então, isso é muito bom. Agora, tem um perigo, um risco:  você tem tanto orgulho da sua terra que fica um pouco fechado: 'Ah, não a gente é o melhor, a gente é o maior do mundo'. Nem sempre é melhor ser o maior do mundo. Mas você chega e percebe logo de cara essa personalidade. Outros estados não têm esse orgulho porque não possuem essa grande história que Pernambuco possui e é bem diferente do Sul.

No fim do mês passado, a Fiat completou dois anos de funcionamento em Goiana. A instalação da fábrica aqui mudou a relação dos italianos com os pernambucanos?
Vamos dar um contexto: para o italiano e para toda a Europa, a primeira coisa que as pessoas pensam em relação ao Brasil não é sobre a mais moderna fábrica do mundo. Geralmente, é praia, samba, água de coco. Às vezes, as mulheres. É também futebol e festa. Em uma palavra, é férias. Essa visão, um tanto parcial das décadas de 1970 e 1980, podia ser verdade, quando aqui não tinha um setor industrial muito desenvolvido. Mas tem que ser mudado e vai mudando aos pouquinhos. Você já tem uma grande mudança lá fora porque hoje você tem a Petrobras, que é uma das maiores, se não a maior, empresa mundial de óleo e gás e que todo mundo conhece no exterior. Sabem que o Brasil não é só quantidade, que é qualidade também. Pode ter os seus problemas, mas já está mudando a visão fora, e outras empresas contribuem para essa mudança. Não é assim do nada que a Fiat decide chegar em Pernambuco. Não vai chegar num deserto. Claro, teve uma boa visão e trabalho do ex-governador Eduardo Campos que facilitou muito e  bateu muito forte para que isso acontecesse, mas não teria acontecido se já não tivesse uma mudança de percepção do que é o Brasil e, dentro dele, Pernambuco. Isso já é um processo histórico, mas quando a fábrica de uma marca, de um produto, que já é europeu, já é norte-americano, enfim, internacional, mundial, começa a produzir no país a troca de conhecimento e experiências. São os próprios engenheiros que vêm morar em Pernambuco e voltam para a Itália e os pernambucanos que vão estudar e morar na Itália e que voltam para cá. Agora, se você pergunta para o povão a imagem do Brasil, ainda é aquela. Mas quem conhece um pouquinho e, nem falo de elite, quem tem uma empresa com interesse no mercado internacional para o produto dele vai saber que o Brasil é uma grande realidade. Que Pernambuco tem uma mão de obra especializada comparada com todo o Nordeste e talvez esteja ao nível do Sul, mas sem os problemas de lá. Então, eu acho que é o grande diferencial de Pernambuco. É algo muito interessante e eu acho que a visão do Eduardo Campos foi bem longe porque, agora, depois de dois anos, deve ter só uns dez italianos trabalhando na Fiat, em Goiana. Pode trazer, quando tiver um problema ou outro, um profissional de lá. Mas 99% das pessoas que trabalham  hoje são pernambucanos e eles foram tirados de uma realidade muito limitada de Goiana, Abreu e Lima, que talvez pudesse ser boa, talvez não, mas que agora são gerentes de planta da Fiat, podem ser enviados para o Estados Unidos, para Turim, mas eles têm raízes em Pernambuco. Eles irão, vão voltar e trazer com eles conhecimentos de todos os lugares, o que é bom para o futuro. Eu sei que dois anos é muito pouco, mas já dá para ver resultados.

O estaleiro Vard Promar, braço do grupo italiano Fincantieri e instalado no Complexo Industrial Portuário de Suape, prepara-se para entrar no processo licitatório que será lançado pela Marinha para a construção de quatro navios corvetas médias, um investimento de US$ 1,8 bilhão. Qual a importância desse negócio?
A gente está muito interessado nessa licitação da Marinha para a produção aqui em Pernambuco, no Porto de Suape, no estaleiro da Vard. Existe a possibilidade de construir no Rio de Janeiro também, mas vamos ver. Acho que aqui tem mais interesse por causa da infraestrutura do Porto de Suape.

O senhor demonstrou também um interesse em uma maior inserção da cultura italiana no Nordeste. Inclusive, comentou sobre realizar um festival de cinema moderno, além de um evento de desing e moda. Como estão caminhando esses projetos?
As semanas de design e da moda são coisas separadas, cada uma tem a sua. Elas podem acontecer, mas só em 2018. Agora o festival de cinema vai ser na Fundação Joaquim Nabuco. Está fechado o local, mas ainda não temos a data. Deve ser entre julho e setembro. O design e de moda, separados, seria em março do próximo ano. O evento de moda é pensado para ser uma promoção da moda italiana, não para fazer uma união entre a moda pernambucana e a italiana. É mais trazer alguns designers de moda, produtores, fazer desfiles, organizar eventos sociais para promover algumas marcas... Já para a semana de design, o que a gente quer fazer é trazer obras, produtos e alguns designers para mostrar o que é o design italiano, principalmente nos móveis, decoração e interiores. Isso se junta para gente de uma forma indissolúvel com o estilo de vida italiano. Então, esses são os móveis que têm a ver com o cafezinho italiano, com o cozinhar em casa. Um estilo de vida que aqui não é muito conhecido e a gente quer trazer também. O festival de cinema seria com filmes recentes, dos últimos cinco anos. Não vai ser aquela coisa de produção tipo “cabeça”, como vocês dizem aqui, e nem vai ser o equivalente do cinema italiano a Transformers. Vai ter equilíbrio para atrair o público. Então, vão ser filmes intelectuais, mas não tão difíceis de entender.

Há possibilidade de realizar também um festival de culinária italiana, como ocorre em outros estados?
Existe uma iniciativa que se chama Semana da Cozinha Italiana, promovida pelo Ministério das Relações Exteriores através dos consulados, que acontece já no Rio de Janeiro, São Paulo e Curitiba. Nunca aconteceu no Recife porque é difícil encontrar ingredientes italianos aqui, é muito caro, esse é o grande problema da gente. O que se encontra aqui é o que a gente chama de italian sounding, que é o ingrediente que parece italiano, mas não é italiano. É o queijo “tipo mussarela”, mas que não é mussarela. Ou seja, tem a bandeira branca, verde e vermelha, mas é feito aqui, do jeito brasileiro, não tem nada a ver com o queijo italiano, tem o gosto brasileiro. O grande problema da gente não só impede que seja importado um queijo, um presunto, uma carne italiana, que é um dano imediato, e isso muda o gosto do que o pernambucano e o nordestino acham que é italiano. Você não sabe quantas vezes já escutei de alguém que viaja para a Itália que “a pizza não tava boa, a nossa pizza é melhor”. Porque na Itália, a gente tem um gosto diferente, não é melhor nem pior, é diferente. Para nós, é qualidade e não quantidade, para a gente é tomate, mussarela e azeite, só isso. Aí o brasileiro chega e fala:  “Mas cadê a azeitona, presunto, pepperoni, salada, ovo, catchup, abacaxi?' Não existe, é outra coisa. Mas, na verdade, é a educação, o costume de sentir um gosto da combinação de ingredientes. O grande problema é que não só não se encontra ingredientes, mas que o nordestino não está acostumado com o paladar italiano. Até quem quer abrir um restaurante italiano aqui encontra dificuldades, porque só vai encontrar ingrediente caro. Então, fica difícil para a gente fazer uma semana da cozinha italiana. No Sul, é diferente porque tem produtores italianos de queijo e outros produtos.

Na próxima quinta-feira, está prevista a vinda de um grupo de embaixadores a Pernambuco. Como será essa visita?
Todos os anos, o embaixador da União Europeia em Brasília organiza uma visita a uma cidade diferente do Brasil e leva com ele todos os embaixadores que também estão em Brasília para visitar a cidade e apresentar projetos europeus. Geralmente, são projetos de assistência social. Faz um tempo que eles não vêm ao Nordeste e eu falando com o embaixador da União Europeia (João Cravinho), em Brasília, dois meses atrás, perguntei: “Há quanto tempo vocês não vão para o Recife?” e ele respondeu: “Olha, nem sei, faz tempo”. Aí a gente combinou que seria uma boa ideia. Eles sempre vão para São Paulo, Rio de Janeiro, às vezes Curitiba e Salvador. Então, na quinta-feira, ele está vindo para o Recife com um representante de cada país. Haverá um seminário, provavelmente na UFPE, uma visita à fábrica da Fiat e um concerto de uma banda austríaca que vem de Brasília para um show de jazz.