ENTREVISTA

ENTREVISTA // MV BILL » 'Mesmo num não lugar, você pode ser o que quiser' Para o rapper, moradores de comunidades que podem lutar e driblar a situação de pobreza devem fazê-lo

Marcionila Teixeira
marcionila.teixeira.@diariode pernambuco.com.br

Publicação: 08/07/2017 03:00

Alex Pereira Barbosa, 42 anos, é mais conhecido como MV Bill. Ainda criança, viu muitas cenas de traficantes cravados de balas nas ruas do bairro Cidade de Deus, no Rio de Janeiro, onde vive até hoje. Naquela época, o carro do Instituto de Medicina Legal (IML) demorava quase um dia inteiro para recolher os corpos. As  imagens, conta, funcionavam como uma espécie de lição para os moradores. Algo como dizer: “se escolher o lado do crime vai terminar igual àquele corpo”. De passagem pelo Recife para participar do I Congresso Internacional de Prevenção ao Uso de Álcool  e Outras Drogas, promovido pela Prefeitura do Recife, Bill conversou com o Diario.

O rapper ganhou fama em 2007 depois de fazer o documentário Falcão, meninos do tráfico, no qual contava as histórias de 17 jovens que se envolveram com o tráfico de drogas. Ao final do trabalho, apenas um dos entrevistados estava vivo. No último dia 24, o Diario trouxe o especial Exército Juvenil (bit.ly/ExercitoJuvenil), que mostra a realidade de adolescentes recrutados pelo crime no Grande Recife, de suas famílias e de jovens que sobreviveram à incursão na violência. Para Bill, a divulgação do documentário ajudou no debate sobre o tema e trouxe iniciativas positivas para as comunidades. Na entrevista abaixo, ele fala sobre a infância, descriminalização de drogas, atuação da igreja nas favelas, pobreza x violência e racismo.

Quais experiências você acha que os jovens mais gostam de escutar em suas falas?
Quando digo que vim da Cidade de Deus, que tive infância pobre, que os pais separaram cedo. A maioria dos meus amigos morreu ou está presa. Alguns são vivos, mas estão mortos, pois têm muitos filhos, estão desempregados, sem planos de vida, de envelhecimento. Quando digo que passei por todas essas fases, mostro que mesmo você nascendo em um não lugar você pode ser o que quiser. Talvez não necessariamente um astronauta da Nasa. Mas você pode ser algo diferente daquilo que o local te reserva. É muito difícil, às vezes é cobrada a meritocracia das pessoas. Só que o ponto de partida não é o mesmo. As pessoas querem chegar no mesmo lugar, mas tem gente que está mais longe, está descalço, está sem roupa. Só que a gente não pode aceitar essa situação. Então, quem pode lutar e driblar isso tem que fazer. A gente acabou de inaugurar na Cidade de Deus um curso pré-vestibular. Eu participei do primeiro curso  pré-vestibular da Cidade de Deus nos anos de 1990. Só que tinha o nome pré-vestibular para negros e carentes. E esse nome vinha com um peso grande nas costas. Como se não tivesse outro tipo de gente na Cidade de Deus. Não precisava trazer esse prefixo. E isso deixava as pessoas meio envergonhadas. Costumo falar também de minha experiência com a captação de imagens do documentário Falcão, meninos do tráfico, da elaboração do livro e dos caminhos que busquei para ajudar a reverter um pouco aquilo que a gente estava mostrando no documentário, no caso, a Central Única das Favelas (Cufa). Esse tipo de debate sempre acaba abrindo espaço para outras coisas, por mais que o foco nas palestras seja a prevenção às drogas, sempre surgem assuntos como racismo, rap, política partidária, social.

Por falar em pré-vestibular, qual seu posicionamento sobre as cotas nas universidades?
As universidades públicas são as mais contrárias ao sistema de cotas. Ironicamente, as privadas têm política de cotas mais aceitável. Acho importante o sistema de cotas, só que ele não pode ser permanente. Acho que tem que ser temporário. Em muitos lugares ele nem precisa ser usado porque muitos jovens já têm pais que criaram condições. Gente da minha idade, que teve outro tipo de formação, hoje tem filho e tem condições de dar colégio bom para o filho. Então, ele não vai precisar do sistema de cotas. Meus dois sobrinhos, para quem pude pagar colégio particular, não precisam de cotas. Estudaram em colégio particular e estão em pé de igualdade para disputar com qualquer garoto de classe média uma vaga na universidade. Mas é muito ruim o que eles fazem. É muito ruim quando um sai do ponto de partida que o professor está em greve e o outro sai do colégio particular. Só que na hora do vestibular, os dois prestam na pública, onde deveria estar a galera sem grana, sem dinheiro, mas está a rapaziada com dinheiro. Voltando à Cidade de Deus, acabou de inaugurar o curso pré-vestibular só com esse nome. Quando entrei, fui fazer uma fala de boas-vindas, contar minha experiência com cursos anteriores e a frustração de não ver tanta gente da minha idade, da minha geração com curso superior. Quando entrei na sala, a primeira surpresa foi que 99% das pessoas eram mulheres, todas negras, e os professores, além de ser afrodescendentes, a maioria era morador da Cidade de Deus, que eu nunca tinha visto na minha vida. Dos anos 1990 para cá, quando participei do curso, demoramos 20 anos para evoluir. Mas, se a gente tivesse uma força coletiva de mobilização, um poder público menos corrupto, investisse verba na educação de verdade, a gente  não estaria nem falando em cotas hoje.

No último dia 24, o Diario publicou um material chamado Exército Juvenil, que também fala da incursão de adolescentes no mundo do crime. Me chamou a atenção o fato de, em Pernambuco, 96% das crianças e adolescentes assassinados entre janeiro e abril terem sido classificados pela polícia como pardos, o que denota racismo. Qual tua opinião sobre o assunto?
Pardo é uma coisa criada no Brasil. Aqueles que são considerados não brancos recebem essa nomenclatura. Pardo é a cor do envelope. É só uma coisa que acaba confundindo e tirando a nossa identidade racial. O Brasil é o país que mais tem gente preta depois do continente africano. Só que aqui não se chama de preto. Se chama de pardo. Então foram criadas subdivisões dentro da raça negra a ponto de que quando se faz Censo do IBGE se considera um monte de raças dentro do Brasil. As pessoas, na hora de escrever a raça, têm múltipla escolha. Tem moreno, mulato, marrom, menos preto. Falar que é preto está ligado às coisas que, midiaticamente, historicamente, são mostradas como coisas ruins. Então, há uma questão racial histórica que já conseguimos quebrar bastante disso. Conseguimos, que digo, é o coletivo. Mas ainda tem muito para mudar em termos de mentalidade.

O documentário Falcão ainda muda a vida da pessoas, dez anos depois?
Quando foi lançado, teve um impacto muito grande. Teve também muita comoção e mobilização momentânea. Talvez, porque tinha muita mídia em cima, chocou o Brasil. Era uma perspectiva diferente de tudo que vinha sendo mostrado até então. Sempre era algum jornalista falando o que ele sentiu ao ver a situação. Ali era um ineditismo que a gente tinha. Eu só quis levar isso adiante porque a fala dos jovens não era fala de incentivo ao tráfico, não era fala de apologia à criminalidade. Era uma fala de lamentação. Até de certa tristeza, de tom meio lamentoso. A gente não chegava entrevistando. A gente convivia. No primeiro dia, eles podiam demonstrar certa resistência, mas uma semana depois, viravam outra pessoa. Começavam a falar o que estava no coração deles. Esse foi um trabalho que fez a gente chegar em vários lugares, falar com várias pessoas. Até hoje reverbera. Não com o mesmo impacto que foi para a geração que assistiu na TV. Hoje tem gente que me segue que tem a metade de minha idade e eles não assistiram na TV. Tem pessoas que viram pela internet. É outro impacto. E tem gente que nem sequer assistiu. Então, é coisa que precisa voltar, trazer as pessoas para o impacto de novo.

Você tem planos de fazer um outro documentário?
Já até tentei falar sobre o assunto, mas pela repercussão que o primeiro teve, acho que seria difícil conseguir sinceridade para um próximo documentário. A não ser que pegasse outras pessoas e botasse para filmar para mim . Se eu tivesse junto, iam dizer: “Aí o Bill, pô”, “porque eu posso aparecer mais”. Tipo assim, o jovem que se destacou foi o jovem que queria ser palhaço. Eu não sabia que ele ia ser destaque, que ele ia ser o sobrevivente. Achei demais isso, ele falar de forma espontânea, coisa que não falaria para ninguém. Tu imagina um cara com um fuzil dizer que quer ser um palhaço. Palhaço é um xingamento, seu palhaço, bobão. Achei uma parada singela para alguém que está do lado violento da história. Quando eles falaram, achei que aquilo deveria ser compartilhado para o Brasil inteiro. A gente sabia que se voltasse para os lugares depois da repercussão, todo mundo ia começar a interpretar. Ninguém ia ser verdadeiro.

Como você entende a política de combate às drogas. Tem que ter descriminalização?
Olha, acho que a descriminalização ainda é uma coisa pouco distante, sabe? Acho que, para o Brasil chegar a esse patamar,  precisa ter um crescimento educacional para preparar as pessoas para lidar com a descriminalização. Acho que, no momento, a gente carece mais de discussão, que é o que a gente está fazendo hoje aqui, com esclarecimento, elucidação, para mostrar para os jovens que quando ele entra nas drogas ele tem o prazer, mas ele precisa saber da consequência de cada tipo de droga que ele vai usar. Isso é esclarecimento que o Brasil não tem. O Brasil só tem política de “diga não às drogas”.

Como assim?
Acho que esse tipo de proibição acaba por aguçar e levantar mais a curiosidade do que necessariamente mostrar que é o caminho ruim.

Entendo que a participação das igrejas em lugares onde não há a presença do poder público é importante, porém há o pensamento conservador. Como você vê isso?
Acho que qualquer tipo de luta que combate as drogas, o uso e o abuso delas ou quem está sofrendo com isso  é importante, mas acho que não deva ter somente um método. Respeito as igrejas, mas acho que devem ser criadas outras alternativas. Não tenho religião e acho que o poder público também tem que fazer sua parte. Não pode vir com viés religioso. Por mais que tenha uma bancada evangélica, acho que tem que vir com a cara da coletividade. Acho que, além da bancada evangélica, tem que ter a bancada da favela, da macumba, dos orixás.

Há planos da Cufa ser instalada em Pernambuco?
É bem complicado de trabalhar em outros lugares. Às vezes, as parcerias que podem ser feitas de forma governamental só interessam a quem  está no poder público se tiver alguma coisa midiática. Isso é muito ruim. Às vezes, o projeto é muito bom, mas eles pensam muito na mídia, no retorno que vai dar em voto.  Então, obras feitas com cunho eleitoreiro acabam atrapalhando o desenvolvimento do local e, às vezes, as parcerias com quem mantém o diálogo lá na ponta. A gente teve situações em que foi apresentado um bom projeto para determinada prefeitura, mas ela preferiu fazer sozinha. E foi um fiasco. Não teve adesão. Gastou dinheiro público e poderia ter uma parceria com alguém que já dialoga lá na ponta. O poder público chegar num local que ele nunca dialogou não existe. Tem pessoas que já estão lá fazendo. É preciso conversar com essas pessoas. Elas não substituem o poder público e, por isso, elas precisam de parceria forte.