ENTREVISTA

ENTREVISTA // FRED AMâNCIO » 'Comemoramos a evolução e não a nota em si' Secretário de Educação de Pernambuco explica o sucesso da rede pública estadual e fala sobre os desafios para o futuro

Rosália Vasconcelos rosalia.vasconcelos@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 09/09/2017 03:00

Os gráficos de resultados da rede estadual de ensino, sobretudo os do Nível Médio, vêm sendo uma curva ascendente nos últimos dez anos, e têm destacado Pernambuco no cenário nacional. Em 2007, quando teve início o programa Pacto pela Educação, Pernambuco tinha uma nota de 1,7 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), o que o deixava na 21ª posição no ranking nacional. Desde 2015, o estado ocupa o primeiro lugar, atualmente com o índice 4,1, superando a média nacional, cuja nota é de 3,5. Segundo o secretário estadual de Educação, Fred Amâncio, esses resultados são obtidos a partir de práticas gerenciais baseadas em melhoria contínua, intenso monitoramento e foco na resolução de problemas. Um exemplo mais concreto desse trabalho é a redução substancial da taxa de abandono escolar. No mesmo ano de 2007, Pernambuco tinha uma taxa de 24%, o que o colocava na 26ª posição no ranking nacional. Ao longo do ano, a rede perdia um quarto dos estudantes que se matriculavam, porque a escola não era atrativa.
Hoje, essa taxa tem um percentual de 1,7%, colocando as escolas estaduais de Ensino Médio na primeira posição do país. Entre as razões, está o aumento do número de unidades em tempo integral, que oferta aos alunos, além das disciplinas obrigatórias determinadas pelo Ministério da Educação, atividades culturais, disciplinas extracurriculares, como empreendedorismo, oferecendo uma formação integralizadora não apenas para aqueles que querem seguir o caminho acadêmico, como também para os que já desejam ingressar no mercado de trabalho. Mais da metade dos estudantes da rede estadual está matriculada nas escolas em tempo integral. Em entrevista ao Diario de Pernambuco, Fred Amâncio destaca os principais eixos do trabalho que vem sendo desenvolvido pelo programa.

Houve uma migração de alunos da rede particular de ensino para a rede estadual, sobretudo no Ensino Médio nos últimos dez anos?
Ao longo dos anos, a gente está percebendo uma redução no total de estudantes da nossa rede. Mas isso tem a ver com a mudança da pirâmide etária do Brasil, porque o país está envelhecendo, a taxa de natalidade está caindo. Então, consequentemente, temos cada vez menos jovens. Claro que temos casos de municípios que ainda têm uma taxa de natalidade crescente, como Caruaru. No estado como um todo, não. Mas o volume de estudantes em Pernambuco não está caindo se comparado ao do Brasil. Porque a gente já vinha num ritmo grande, especialmente depois de 2013, que o estado foi para os primeiros lugares no Ideb, saltando de 16º para o 4º lugar. Também aumentamos, nesse período, o número de escolas em tempo integral, que foram se expandindo pelo estado. E as pessoas viram que as escolas têm um trabalho bem interessante. Então, em 2015, recebemos 14 mil estudantes vindos de escolas particulares. Cerca de 80% vêm para o Ensino Médio. Em 2016, já foram quase 16 mil. Em 2017, quando divulgamos o Idepe, que fomos para o primeiro lugar e muita gente passou a conhecer o que estava acontecendo em nossas escolas, esse número passou para 23 mil novos estudantes egressos de escolas particulares. É muita gente. Metade dos municípios pernambucanos não têm 23 mil pessoas. Esses alunos vêm para o Ensino Fundamental sim, mas a grande maioria é para o Ensino Médio.

Essa mudança tem a ver com a crise ou com a melhoria substancial da qualidade do ensino da rede pública?
Essa migração tem provocado fenômenos interessantes. Alguns municípios do interior deixaram de ter escola particular de Ensino Médio porque as escolas públicas estão tendo resultados muito melhores. Em alguns municípios, o aluno fica em escola particular até o Ensino Fundamental e depois migra para o Ensino Médio público. Aqui no Recife, o estudante não sai do Colégio São Luiz, por exemplo, para ir estudar em uma escola pública. Mas muitas escolas de bairro e algumas escolas tradicionais têm perdido estudantes para a rede estadual de ensino. A Escola Independência, na Estância, fechou as portas neste ano. Outros colégios como o Salesiano, o Maria Auxiliadora e o São José perderam estudantes para as nossas escolas. É porque as pessoas começaram a perceber que o nosso resultado diferenciado é o do Ensino Médio. Tivemos um investimento grande em estrutura, temos o programa Ganhe o Mundo, o de robótica. O conjunto da obra faz o estudante ponderar que o que ele tem hoje em escola pública não tem em muitas escolas particulares. E as pessoas acompanham os resultados do Idepe/Ideb. Tem as escolas especiais (técnicas e de aplicação). Para se ter uma ideia, as escolas técnicas têm um regime de cotas, com 70% das vagas reservadas para estudantes vindos de escolas públicas. Senão só teriam estudantes de escola particular, porque elas têm excelente estrutura e resultados extraordinários. A combinação da estrutura com os projetos e a melhoria dos resultados das escolas, da qualidade, têm atraído estudantes de escolas particulares.

O currículo do Ensino Médio na rede estadual é diferenciado?
No Ensino Médio, o currículo é padrão no Brasil. As disciplinas são as mesmas em todo o país. Vai deixar de ser agora com o Novo Ensino Médio. O que nós temos de diferenciado são as escolas em tempo integral, porque têm uma carga horária maior e mais flexibilidade. Têm aulas em laboratórios, estudo dirigido, protagonismo, projeto de vídeo, empreendedorismo, um tempo para atividades culturais, porque estamos o dia inteiro com o estudante na escola. Promovemos algumas atividades culturais fixas do nosso calendário, em que as escolas concorrem entre si, como o Concurso da Água. Algumas são pontuais, como o da Revolução Pernambucana, que aconteceu neste ano, e outras atividades culturais são incentivadas dentro da escola. Temos nessas escolas uma preparação diferenciada do estudante. E hoje temos mais escola em tempo integral no Ensino Médio do que São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais juntos.

Quais são os principais desafios da rede estadual de ensino?
Quando a gente comemora a nota do Idepe, comemoramos a evolução e não a nota em si, porque ela ainda é muito baixa. O desempenho do Brasil ainda é muito baixo. O nosso projeto não é ser o primeiro lugar. Nossa meta é evoluir. Todo ano temos uma meta diferente que é subir mais um degrau (do Idepe). Todo ano estamos incorporando uma forma de estar cada vez mais forte, mais presente em nossa rede. Para isso, temos uma estratégia de monitoramento das escolas. Acompanhamos cada escola de perto através de várias linhas estratégicas. Essa estrutura de gestão por resultados trabalha não apenas os indicadores de frequência de aluno e professor, as aulas dadas e o sistema de avaliação. É um conjunto de coisas que são monitoradas, a nível de estudante, de turma e de escola para saber se a escola está indo bem ou mal. A partir daí temos como saber quais as áreas que precisam ser reforçadas. E vamos trabalhando não apenas o reforço escolar, mas a formação dos professores nas áreas mais deficitárias para que possamos avançar. Os dados de cada escola estão reunidos no Portal da Educação (www.portaldaeducacao.recife.pe.gov.br). As unidades que atingem as metas recebem Bônus por Desempenho Educacional, que é o famoso BDE, um bônus financeiro para todos os funcionários das escolas.

Qual é o projeto da rede estadual de ensino a médio e longo prazo?
Temos uma rede que já evoluiu dentro dessa cultura de melhoria, de buscar formas de entender os resultados e observar como pode melhorar. Então, às vezes o próprio professor já sabe como melhorar porque já entende como funciona essa cultura. E a gente avançou agora para ter o portal Foco Educação, no qual o professor consegue perceber, aluno por aluno, o desempenho de cada um, independentemente até das planilhas que eles recebem. Estamos buscando ferramentas para que o nosso trabalho se modernize cada vez mais. Eu tenho citado isso como exemplo de como nós estamos sempre buscando ferramentas novas para que esse trabalho tenha continuidade.

O que ainda falta para melhorar o Ensino Fundamental da rede estadual?
Nosso trabalho de Ensino Médio hoje é muito bom. É inegável. Mas o nosso resultado de Fundamental em Pernambuco não é bom ainda, é basicamente de redes municipais. Porque do 1º ano ao 5º ano, os anos iniciais, é só rede municipal. E do 6º ano ao 9º só temos 36% das matrículas na rede estadual. Então os meninos do Fundamental vêm das redes municipais. E eles vêm com muitas carências, muitas lacunas. A rede municipal tem ainda resultados muito ruins, mesmo a nível nacional. Claro que existem municípios pernambucanos que fazem um trabalho espetacular. Mas estamos falando de uma média. Se a gente consegue pegar um menino que estava no 16º lugar no Ensino Fundamental e colocá-lo no primeiro lugar no Ensino Médio, é porque o trabalho do Médio é muito bom. Então, nosso próximo trabalho é dar subsídios e estratégias para apoiar os municípios para que eles também comecem a dar bons resultados com base em tudo que a gente já aprendeu ao longo dos anos. Faz parte do programa de governo Paulo Câmara um projeto chamado Educação Integrada, onde estamos levando uma série de estratégias para que os municípios possam melhorar seus resultados. Nós começamos essa experiência com 15 municípios de cada região do estado. Todos os eixos estão sendo levados para essas cidades, até as escolas em tempo integral. Já temos uma em cada um desses municípios.