ENTREVISTA

ENTREVISTA \\ TIAGO CAVALCANTI » 'A desigualdade pode ser muito ineficiente' Senior lecturer da Universidade de Cambridge, Tiago Cavalcanti faz uma análise do cenário econômico do Brasil

Kauê Diniz | kaue.diniz@diariodepernambuco.com.br

Publicação: 30/12/2017 03:00

Para o Brasil voltar a crescer serão necessárias as reformas de Estado (gestão pública) e Previdência, abertura econômica do mercado, principalmente no segmento de bens intermediários, PPPs que possam destravar os investimentos em infraestrutura, melhor alocação de mão de obra e dos atuais benefícios fiscais e um olhar especial para as universidades. Esses são os desafios apontados pelo economista pernambucano Tiago Cavalcanti, um nomes mais fortes do setor na atualidade, ao próximo presidente do país, que será eleito em outubro de 2018.  Graduado em ciências econômicas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE),  com mestrado e doutorado em economia pela University of Illinois, Tiago não enxerga possibilidade de novas crises econômicas no mundo  nem no Brasil no próximo ano e acredita que, em breve, o país voltará a atrair investidores internacionais. Atualmente, o economista é senior lecturer da Universidade de Cambridge e Fellow do Trinity College com ênfase em macroeconomia, crescimento e desenvolvimento econômico. Morando em Londres, o economista conversou com o Diario em visita ao Recife e traçou um quadro contundente sobre o futuro da economia e as responsabilidades do novo presidente do Brasil.

Poderemos ver uma nova crise mundial em breve?
Em 2018, acho difícil. Acho que o ano que vem será um ano bom para o mundo. A Europa ainda está se recuperando. A economia norte-americana continua crescendo. Países da periferia  da Europa continuarão crescendo, principalmente Portugual e Espanha. A Inglaterra, com o Brexit (saída  da União  Europeia), em uma visão de curto prazo vai sair no prejuízo ao perder a integração daquele mercado de bens e  serviços. Tudo por causa da migração. Nem todos se beneficiaram com a imigração. O grande problema que levou  ao Brexit foi o congestionamento de bens públicos. As filas, o período de espera por serviços públicos, maior concorrência para escolas. Mas os salários não caíram com a imigração. O Brexit foi uma resposta social, não econômica. O Bitcoin é muito pequeno em relação aos ativos da economia. Mesmo que haja uma quebra, não terá um efeito tão  grande na economia mundial. O que pode ameaçar uma crise mundial é a China. Todo mundo fala que tem bolha de ativos na China, mas continua crescendo. Já a Índia não é uma preocupação. Ela tem um potencial de crescimento grande, pode ocupar um espaço importante no mercado mundial, mas tem graves problemas de  infraestrutura semelhantes ao Brasil. Apesar disso, também não vejo queda de crescimento. Então, atualmente, não vejo fontes claras de ameaças à economia mundial.

E a crise no Brasil?
Eu vejo o Brasil de forma positiva. A gente tem um potencial de crescimento alto. A crise foi bem profunda, mas esse processo chegou ao fundo do poço, com a taxa de juros muito baixa e pode cair mais ainda se o Banco Central for ousado. Está hoje em 7%, pode baixar mais, deve baixar.

Como avalia a reforma da Previdência?
A reforma da Previdência deve ser apoiada quando a gente pensa na sustentabiliade do Estado. A maioria dos economistas concorda com isso. Não ter é a mesma coisa de pegar um empréstimo e colocar a renda do meu filho como garantia. Não é uma boa solução e é o que está acontecendo. Mas a grande questão é a narrativa da reforma da Previdência. O primeiro ponto é cumprir o teto. Isso deve ser feito com todas as categorias e pessoas ativas e inativas. Retirar grupos, categorias, por mais que não tenham um impacto negativo nas contas, acaba enfraquecendo o apoio popular. Outra coisa, um país com uma informalidade tão grande como o nosso você colocar 25 anos de contribuição para o cara poder receber um salário mínimo, de certa forma é muito injusto. As pessoas vão se perguntar: “será que eu devo contribuir?” Poderia deixar o  mínimo como base, para todos, (mínimo da Previdência, não exatamente o salário mínimo) e depois cada um vai  receber proporcionalmente mais na medida que contribui mais.

Teria uma fórmula ideal?
Todo mundo ter direito a uma aposentadoria mínima independentemente do quanto contribuiu. Depois de 65 anos, todo  mundo recebe. Na Inglaterra são 100 libras por semana, dá 400 a 450 libras por mês. A partir daí, você faz  sua própria contribuição. A conta geral é que a pessoa vai se aposentar depois de 40 anos de trabalho com metade do salário. Isso é considerado uma boa pensão. As pessoas nessa fase da vida lá não têm mais despesas com educação, comprar  casa, saúde de filhos etc. Fica uma conta equilibrada, o trabalhador vai manter o padrão de vida. No Brasil, temos um problema com a saúde na terceira idade, com o preços dos remédios e planos de saúde, isso muda a conta. A gente tem que combater a desigualdade de forma  uniforme. O Estado é grande, dá muitos benefícios para grupos específicos e isso gera distorções. Mudar isso é  muito difícil. Não é só a reforma da Previdência. Temos que mudar a filosofia do Estado com gastos tão grandes e errados. Precisamos olhar com maior racionalidade e equanimidade para os benefícios e incentivos. Essa é a questão. O Brasil gasta muito mal.

O senhor enfoca muito na questão da produtividade. Como o país pode melhorar?
Primeiro, é necessário a gente observar uma coisa. Você pega uma medida de capital humano, por exemplo, anos  médios de escolaridade da população no eixo horizontal de um gráfico e, no eixo vertical, coloca produtividade. Na Coreia do Sul, o gráfico mais mostrar um aumento exponencial. No Brasil, essa relação é praticamente zero, não vê uma tendência. Aí você pensa: “poxa, a gente está investindo tanto em capital humano”. Todas as teorias indicam que aumenta a produtividade. Mas nos dados agregados, a gente não vê esse aumento. Mas o interessante é que se você olha nos microdados individuais das pessoas, os maiores salários são as maiores escolaridades. Esses dados, o micro e o macro, aqui, no Brasil, parecem ter conflitos entre eles. Porque isso acontece? Porque a gente aloca muito mal as pessoas. A gente usa pessoas de alto capital humano de forma improdutiva. Fazendo tarefas que não precisam de tanta expertise ou com tanta criatividade. Há um  problema nacional de má alocação dos recursos humanos no Brasil. Isso cresceu muito do período de 2006 até 2014. A questão da qualidade do ensino também nos diferencia da Coreia do Sul. Às vezes, mesmo muito qualificada, a pessoa aqui não tem um conhecimento realmente elevado. Além disso, as pessoas respondem a estímulos e o setor privado fica bem atrás da atratividade do setor público no Brasil. Então, bons cérebros tendem a optar por  concursos. A pessoa pensa: “se eu fizer um concurso, vou ter estabilidade, trabalhar menos, ganhar bem. Sou inteligente, posso ter essa vida.” Na Inglaterra, o jovem pensa em criar uma startup ou ir  para o setor financeiro. É uma distorção muito grande ver que no Brasil o grande sonho é passar no concurso público.

Como atrair novos investidores para o Brasil?
Uma coisa positiva é que as relações pessoais dentro das empresas do Brasil são muito boas e isso atraí gente do  mundo inteiro, a cultura, o clima de interação, isso confirma o potencial de crescimento do país. Existe um risco  cambial, um risco político, a gente não sabe quem será o próximo presidente da gente. Espero que não caminhemos para uma linha mais nacionalista. O Brasil já é muito fechado. Mas se a gente organizar um  pouquinho a macroeconomia, inflação abaixo da meta, taxa de juros baixa, ter um pouquinho mais de  estabilidade macroeconômica e consertar as questões micros e sociais, voltaremos a atrair. O retorno vai ser alto, como a gente quer. Estávamos indo nesse caminho, mas não conseguimos manter um equilíbrio. Tivemos problemas que deixaram que a crise mundial desorganizasse muito internamente, mais do que os países vizinhos.

Quais os desafios do próximo presidente do Brasil?
Diminuir o tamanho do Estado e focar em questões que a gente quer que o estado foque, como educação, saúde e segurança pública. O próximo presidente tem que pensar num estado em que a gente deixe regras bem definidas para os atores econômicos, pensar num estado em que você possa prover igualdade de oportunidades. A desigualdade pode ser muito ineficiente. Acho que você tem todo o ponto de vista de bem-estar da população. Então a prioridade é uma reforma do Estado. A reforma da Previdência deve ser votada e a narrativa para fazer isso é muito importante. Tem que ser de cima para baixo. Aplicar a todas as categorias, ativos e inativos. O teto para todos. Todos fazendo sacrifício e começar o sacrifício pelas pessoas que têm mais. A questão da infraestrutura é um problema. O Brasil desacelerou e o retorno de investimento de infraesturuta é muito elevado, logo, essa é uma coisa importante e que deve ser olhada, talvez tendo como uma solução as Parcerias Público-Privadas (PPP). É preciso consertar a agenda macro, para começar a poder olhar a agenda micro, que são as demandas de categorias e grupos da sociedade. Todas as reformas vão mexer muito com direitos adquiridos. Devemos ter um pouco mais também de abertura econômica. Abrir o mercado de bens intermediários e diminuir a proteção das empresas nacionais. A partir disso, as empresas terão mais opções para comprar insumos para a produção e se tornarem mais eficientes, aumentando a produtividade geral da economia. E, não menos importante, é preciso voltar a investir nas universidades. As universidades no Brasil ainda estão bem atrás comparando com as instituições de ensino superior de fora. Está na hora da gente olhar esses exemplos de sucessos internacionais e tentar aplicar essas experiências por aqui. A gente investe no ensino superior, mas acredito que estamos investindo errado. Isso tudo precisa ser ajustado porque dentro desses desafios estão as oportunidades de crescimento do país.